O tempo favorável
Poucas são as decisões governamentais que tenham gozado de acordo geral. A escolha do novo responsável da pasta da Administração Interna foi uma dessas. Há questões em que a unidade é imprescindível e atendendo à rotação de governantes nesta área da governação, talvez seja o prenúncio de novos tempos para a segurança da população, não já para evitar, assim acredito, insustentáveis paralisações na gestão de tempestades, como as últimas que atravessaram particularmente algumas zonas do território nacional, mas para outra actuação, célere e consequente, quando chegar a época de eclosão de fogos florestais. Como diz o Candinho de uma novela brasileira que passa num dos canais de televisão, “tudo o que acontece de ruim na gente é sempre para melhorar”, ou seja, é preciso passar por tempos de dificuldade para se encontrar a solução certa. Há matérias em que não deveria ser normal a falta de acordo, pelo contrário, deveriam congregar todos, sem distinção de propostas de “judeu, grego ou romano”, o mesmo é dizer, mesmo que de extremos. Em determinadas circunstâncias, é possível que se supere o egoísmo, o orgulho e a auto-suficiência, ainda que o ideal fosse que tal acontecesse por prática democrática e não por qualquer interesse de oportunidade.
Tem sido reclamada desde há bastante tempo uma renovação mais ou menos profunda no Executivo, não atendida até ao momento, que vai ainda ocupar a luta política durante mais algum tempo, apesar das circunstâncias. Creio que Montenegro não terá muito mais tempo para proceder aos ajustes necessários, sob pena de uma degradação da sua liderança, mas não vai ter alternativa. Aguarda, não tenho dúvida, a tomada de posse do novo Presidente da República, o seu discurso de início de mandato e a primeira conversa em Belém. Os tempos vão ser necessariamente diferentes e ainda que não seja competência do Presidente escolher os governantes, António José Seguro já disse ao que vinha e não me parece que vá recuar na determinação que demonstrou desde o primeiro momento em que disse ao país que tinha decidido candidatar-se ao mais alto cargo do Estado. A teimosia do primeiro-ministro vai ceder à responsabilidade e à vontade da grande maioria do povo português que o último acto eleitoral relevou. É verdade que a eleição foi unipessoal, mas qualquer responsável deve saber ler os resultados, ainda mais quando esse responsável não sai confortável a vários títulos, como foi o caso, com o desenvolvimento do último acto eleitoral. Se as eleições legislativas não libertaram o Governo de uma certa tirania programática, estou em crer que serão as eleições presidenciais que vão equilibrar os diferentes interesses e perspectivas dos portugueses representados nas diversas bancadas parlamentares. Se Marcelo Rebelo de Sousa condescendeu em diversos momentos com António Costa, não creio que isso venha a acontecer no novo enquadramento de magistraturas. Se Luís Montenegro quiser forçar, por exemplo, como o seu antecessor, eleições legislativas antecipadas, já sabe que tal não será fácil com o próximo inquilino do Palácio de Belém. E se não perder a sua tendência para a teimosia, pode bem acontecer que o país disponha de um primeiro-ministro mais respeitoso pelos resultados eleitorais sem que o povo seja chamado antecipadamente às secções de voto.
O tempo é favorável aos acertos que se impõem. Nenhuma tempestade fará esquecer a necessidade de serem feitos, antes pelo contrário, ainda por cima quando aquela não veio só e as condições políticas se alteraram. Para já, Montenegro não tem margem para falhar com as populações atingidas pelo carrossel de tempestades, o que significa que não vai poder adiar demasiado a atribuição dos apoios anunciados.
