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Como o Jorge nos ensinou a lidar com IA

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23.02.2026

Deus deu-nos cinco sentidos! Estava agora a pensar… devia ter dado mais? Será que se esqueceu de alguma coisa!? Não sei como, mas nem mais nem menos! Parece que a sua seleção foi exímia, com um divino poder de seleção do barro que realmente precisávamos.

Mas, se temos de escutar bem, se temos de ver bem e assim por diante, não teria sido melhor termos ficado com os ouvidos de um Pastor Alemão ou a visão de uma águia?

Parece-me que, para muitos de nós, até sobra o que temos, pois nem do que temos tiramos partido.

Com a partida de um amigo muito próximo, que me carregou de mágoa, carregou-me também de uma breve reflexão muito pertinente de algo que nos deixou.

O Jorge tinha uma memória gigantesca! Era a nossa memória coletiva. De facto, lembrava-se com pormenor de acontecimentos idos há muitos anos, com detalhes que nos passaram despercebidos na altura ou que já se tinham apagado ou desvanecido na nossa mente.

Mas, ao olhar para o passado e a rever e recordar o Jorge, não pude deixar de recordar também a forma significativa e presente com que vivia os momentos, com que descrevia o que via, com a curiosidade e atenção com que absorvia as relações com os amigos, a cultura, pintura, leitura, um jornal, enfim, a vida!

Talvez por isso, por estar presente e inteiro nos momentos, os fixou e guardou melhor ao longo do tempo, por uma vida inteira.

Ora, hoje, com a vida a passar por nós diariamente como um comboio a alta velocidade, é difícil, por vezes, prestar-lhe a devida atenção. Ver uma imagem, tirar uma fotografia única que preserve um momento sentido ou uma paisagem bela, uma conversa com um amigo, escutando-o verdadeiramente, ou viver os momentos pelo que realmente valem e não pelo que possam valer em “likes” numa qualquer rede social.

Hoje, tiramos uma resma de fotos como um registo obrigatório que nunca mais vamos ver na vida e que se vai perder quando trocarmos de smartphone. Ouvimos sem escutar, não abraçamos, comunicamos por letras e emojis. Vemos ou espreitamos a realidade por um ecrã azul.

O Jorge era da geração da realidade, talvez daquilo que hoje se poderia chamar de mindfulness nativo – aquele que nasce com as pessoas, nas pessoas que valorizam o mundo e a vida tal como ela é – magnífica.

Este exemplo real e de vida traz um alerta significativo. Talvez hoje, mais do que nunca, os riscos do agravamento deste distanciamento sejam bem substantivos, nomeadamente na redução da empatia, da nossa capacidade colaborativa, entre outras faculdades que não podemos perder.

A sociedade já trabalha em várias iniciativas para inverter ou melhorar o estado deste distanciamento, mas ainda há mesmo muito para fazer.

E não nos iludamos, pois não é porque comprei um carro que não passeio na paisagem. Pela mesma razão, não é porque temos IA que vamos distanciar-nos ainda mais do que é o mundo, do que são as coisas, as pessoas, de falar, de humanizar, de valorizar a presença e não apenas o remoto, de ter ambição, de sermos pessoas, todas diferentes mas todas iguais.

A IA, tal como o carro, leva-nos mais longe e mais rápido, mas também aí, por vezes, não devemos prescindir de seguir pela estrada nacional, ver as pessoas e a vida, e deixar a autoestrada que, como se viu nos últimos dias, também pode ruir.

Faz agora um ano que iniciei a minha rúbrica sobre IA no Diário do Minho.

Passado um ano, com muita evolução técnica, sinto-me muito grato pelos projetos concretizados e pelos avanços que a IA nos trouxe, desde fazer em minutos o que fazíamos em dias ou semanas, mas também mantenho um olhar atento na sociedade, alertando para oportunidades e desafios na aplicação da IA.

Hoje, passado um ano, tenho de sublinhar mais uma vez que a IA dá-nos tempo, devolve-nos espaço e foco para falarmos uns com os outros, para nos entendermos, tendo a máquina para nos ajudar.

Peço, por isso, ajuda divina para que os homens e as mulheres, apesar de todo o deslumbre com a IA, quais crianças a brincar com um brinquedo novo, não se esqueçam de quem são e dos brinquedos que já têm desde nascença – os seus cinco sentidos.

Depois de ter falado muito de IA e da sua aplicação, regresso à base do primeiro artigo: não será que é esta a última oportunidade para ter uma sociedade mais humana!?


© Diário do Minho