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OS DIAS DA SEMANA “O poeta dorme. É a hora do jardineiro.”

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16.02.2026

Cees Nooteboom, um dos mais notáveis escritores contemporâneos, morreu na quarta-feira* em Espanha, em Menorca, nas Ilhas Baleares. O diário Le Monde, muito justificadamente, referiu, na edição datada de ontem, que o escritor neerlandês passou agora a integrar esse honroso “clube dos grandes ‘esquecidos’ do Nobel” da Literatura, juntando-se a Virginia Woolf, Jorge Luis Borges, Italo Calvino e Philip Roth, por exemplo. Mas, como o jornal francês bem dizia, mais do que por qualquer prémio, será mais bem honrado pela memória literária e pelo entusiasmo dos seus inúmeros leitores. Pena é que os seus livros, poucos, que já foram editados em Portugal estejam, quase todos, indisponíveis nas livrarias. Despedida. Poema em tempos de vírus, publicado pelas Edições Alambique, em Setembro de 2023, é excepção.

O poeta dorme. É a hora do jardineiro. / Folhas mortas, a terra molhada e negra, cacto / envolto nos seus espinhos, filho / da tempestade. Dentro de um ano brotará a flor // de que os meses ficam à espera, criança / de uma só hora com a cor que lhe é própria, / o roxo do nascimento e do luto. Neste jardim / a duração não tem nada a dizer, nada a ordenar. // Esta é a sua família, verde e teimosa, / jamais temente do fim, o seu silêncio / o poema que soletra a sua essência. / No muro do jardim gemidos do mundo, o // rumor de um jornal.

Assim é um dos poemas de Despedida.

Um dos livros de Cees Nooteboom mais surpreendentes e inesquecíveis é dedicado a cemitérios. Referida nestas páginas há dez anos, a obra é, na verdade, sobre túmulos, quase cem túmulos que se encontram em cemitérios localizados em sítios do planeta muito diversos. O escritor foi visitá-los à procura dos sítios onde estão os restos mortais dos seus “mortos amados”. O resultado é um livro originalíssimo que compõe uma espécie de cemitério pessoal, um “campo-santo sonhado”.

Tumbas (sem edição portuguesa) é o resultado de um vasto e notável empreendimento que consistiu em visitar a última morada de oitenta poetas e pensadores de todas as geografias e tempos, como Carlos Drummond de Andrade, Honoré de Balzac, Samuel Beckett, Jorge Luis Borges, Bertolt Brecht, Miguel de Cervantes, Paul Claudel, Dante Alighieri, T. S. Eliot, Gustave Flaubert, Friedrich Hölderlin, James Joyce, Franz Kafka, Yasunari Kawabata, Antonio Machado, Joaquim Maria Machado de Assis, Thomas Mann, Pablo Neruda, Susan Sontag, Baruch de Spinoza, Vergílio, Oscar Wilde, William Butler Yeats.

Fernando Pessoa está ausente da obra, ainda que tenha sido procurado. “Já não está aqui”, disse o guarda do Cemitério dos Prazeres ao escritor neerlandês. Não glosava os Evangelhos; simplesmente não sabia ou tinha-se esquecido que o poeta português tinha sido trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos.

O primeiro túmulo que mereceu a atenção de Cees Nooteboom foi o de Marcel Proust, no cemitério parisiense do Père Lachaise. A visita, que ocorreu em 1977, no Dia dos Defuntos, foi o começo de um périplo de quarenta anos. Túmulos de poetas e pensadores (para citar o título da edição de bolso espanhola de 2009) recolhe as reflexões e os poemas de Nooteboom e as fotografias da mulher, Simone Sassen. Na introdução, que é uma admirável apologia da poesia, partilha o autor uma interrogação: “Por que visitamos o túmulo de alguém que não conhecemos?” A pergunta não ficou sem resposta: “Em algum lugar secreto do nosso coração albergamos a ideia de que essa pessoa nos vê e se dá conta de que continuamos a pensar nela”.

Cees Nootebom morreu agora. Não será preciso visitar a sua última morada para crer que o escritor saberá que os seus leitores continuarão a pensar nele, assaz reconhecidos pela poesia, ficção, ensaio e literatura de viagens que nos legou.

*No mesmo dia, morreu também Jorge Humberto. Lembrá-lo-emos e à extraordinária simpatia que tinha sempre para oferecer a cada um dos seus incontáveis amigos.


© Diário do Minho