Da proximidade à aproximação… um caminho a fazer
«Vivemos imersos na cultura do efémero, do imediato, da pressa, bem como do descarte e da indiferença, que impede de nos aproximarmos e pararmos no caminho para olhar as necessidades e os sofrimentos à nossa volta. A parábola relata que o samaritano, ao ver o ferido, não “passou ao largo”, mas teve para ele um olhar aberto e atento, o olhar de Jesus, que o levou a uma proximidade humana e solidária. O samaritano «parou, ofereceu-lhe proximidade, curou-o com as próprias mãos, pôs também dinheiro do seu bolso e ocupou-se dele. Sobretudo deu-lhe o seu tempo». Jesus não ensina quem é o próximo, mas como ser próximo, ou seja, como nos tornarmos nós mesmos próximos».
Este excerto da mensagem do Papa Leão XIV para o 34.º Dia Mundial do Doente quase se pode considerar uma espécie de exame de consciência ao nosso ‘eu coletivo’, tanto eclesial como social, político, nacional ou internacional.
Vejamos alguns dos itens desta citação.
1. Cultura do efémero, do imediato e da pressa
Efetivamente andamos todos (quase sem exceção) acelerados, encasulados (cada um no seu casulo, na sua bolha e nos seus interesses mais individuais), à velocidade de tentar ultrapassar os outros, senão mesmo pisando-os ou trucidando-os com a falta de vagar ou de atenção. Assim vamos deixando tantos à margem e marginalizados sem-dó-nem-piedade… Sem nos darmos conta não apreciamos as coisas simples da vida, tal a ânsia de querer novas experiências, mas, onde muitas delas não passam de requentadas e, no fundo, pouco significativas para o amadurecimento do trato com os outros. A começar pela família podemos viver com o excesso de pressa e cultivando o efémero inconsequente…
2. Cultura do descarte e da indiferença
Quando reparamos que alguém não foi bem atendido? Quando olhamos e vemos os que fazem parte da paisagem, esses que estão sempre naquele lugar do costume e se tornaram figurantes sem papel? Quando olhamos com olhos de ver para as feridas dos outros sem nos queixarmos sempre das nossas (minhas)? Não seremos mais frios do que o gelo, embora necessitando de calor (humano e emotivo) quase em compensação?
A imagem da chiclete que se mastiga e deita fora continua, desgraçadamente, a configurar uma imagem de marca de tantas das relações humanas no nosso quotidiano…
3. Pararmos no caminho para olharmos
Felizmente a língua portuguesa tem palavras diversas para considerar este nosso estar com os outros: olhar, observar, enxergar, notar, perceber, constatar, deduzir, visitar, assistir, prever, imaginar, consultar, examinar e entender.
Se dermos a cada uma destas palavras algum conteúdo, poderemos encontrar imensas implicações sobre se estamos centrados em nós mesmos, numa espécie de egoísmo ou até egolatria, ou se nos atemos aos outros como sujeitos vivos do nosso viver.
4. Há quem pretenda arranjar desculpas para este processo de ensimesmamento progressivo como consequência da pandemia – de março de 2020 a maio de 2023 – com os mecanismos de defesa, os cuidados higio-sanitários e as demais preocupações de cada um consigo mesmo. Há aspetos que se explicam com este ambiente e outras coisas que se foram desenvolvendo por negligência e acomodação de muitos, senão de quase todos.
Reparemos na debandada de bastantes dos praticantes religiosos: a fé de sofá e de pantufas substituiu o incómodo de ir à igreja e de estar com os outros. Perdeu-se o ‘sair de casa’ com os cuidados a roçar uma espécie de hipocondria social, tácita ou menos bem assumida. A hiperprotecção dada às crianças geradas e nascidas na época da pandemia… com as suas inseguranças e medos à mistura com receios dos mais velhos.
5. Numa palavra: a ausência de proximidade condicionou a aproximação. Temos de recuperar a confiança uns nos outros e de todos num todo mais abrangente, leal e sincero.
