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O Insano Esplendor da Manipulação

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28.02.2026

O Insano Esplendor da Manipulação

A alma humana é insondável, dizem aqueles que se dedicam aos domínios mais profundos da reflexão acerca do que somos, do que podemos ser, de como aqui chegámos e de como caminhamos rumo a um futuro que já se anuncia — aqui e agora.

Devido ao processo de criação encetado pelo Criador, segundo os crentes, ou em resultado de uma causa casual ainda não explicada nem plenamente compreendida, os seres humanos, a dado momento, começaram lentamente a afastar-se do mais elementar, evoluindo até se tornarem na mais maravilhosa e complexa obra surgida à face do planeta azul que lhes foi emprestado como morada.

Fisicamente, transformaram-se ao longo de milhões de anos: ergueram-se, caminharam de cabeça levantada e olhar dirigido em frente. Entretanto, dentro de si — por cima dos ombros, encerrado nos ossos do crânio — começou a emergir a consciência, construída através de sensações lentamente observadas, interpretadas e valorizadas, fruto de capacidades únicas.

Como lhes compete, mas sobretudo por consequência do processo natural e evolutivo, foram alcançando e conquistando, medrando, construindo e destruindo, seguindo a sina própria dos seres pensantes — e não ruminantes — ainda que, no seu âmago mais misterioso, nunca deixem verdadeiramente de ruminar os pensamentos que motivam as suas ações.

À medida que as necessidades surgiam, e conforme se impunha a sua satisfação, o ser humano foi-se organizando mentalmente: umas vezes sem reflexão, outras após ponderação, quase sempre com o propósito de melhorar as condições de vida, frequentemente com objetivos mais pessoais do que coletivos.

Passados milhares de anos, nasceram as sociedades, estruturadas segundo poderes distintos, moldados pelas condições de nascimento, pelo lugar ocupado no mundo, pelas capacidades de liderança — para o bem ou para o mal — e pela força colocada ao serviço dos interesses dominantes.

Formou-se então a sociedade em pirâmide, estrutura que permaneceu durante séculos aparentemente estática e cristalizada, até que a própria História, enquanto sucessão incessante de acontecimentos, começou a alterar os seus contornos. Os lugares sociais deixaram de ser totalmente inamovíveis.

A ambição passou a impulsionar ascensões. As manobras para alcançar posições de poder foram sendo afinadas e refinadas. No caminho para as portas dos palácios e dos templos, à medida que novas tecnologias surgiam trazendo benefícios e promessas, foi-se perdendo a moral, esbatendo-se a fronteira entre o certo e o errado, entre a verdade e a mentira.

Chegados ao tempo presente, não será excessivo afirmar que os seres humanos se foram, em certa medida, animalizando. Perdem a noção do todo, enfraquece a capacidade de ponderação e dilui-se o reconhecimento do “outro” como parceiro de travessia neste deserto crescente que é a vida moderna — desejada como eterna, embora inevitavelmente efémera.

Único ser capaz de transmitir mensagens complexas e dirigidas, o homem tornou-se também objeto daqueles que, manipulando fios invisíveis suspensos no éter, identificam desejos e temores, exploram medos e ocupam silenciosamente as cavernas mentais. Na penumbra, quase impercetivelmente, moldam pensamentos, influenciam comportamentos e orientam opiniões.

Como alfaiates da consciência coletiva, ajustam discursos à dimensão mental de cada indivíduo. Desconstroem identidades, redefinem pertenças, apontam problemas e culpados, apresentando-se simultaneamente como iguais e como salvadores, prometendo abrigo numa nova arca de Noé caso o dilúvio não seja evitado.

Palradores incansáveis, repetidores até à exaustão, percebem que os seus intentos prosperam: a criação de um mundo sem lei comum, regido apenas pelas suas próprias regras. Apesar de anos de escolaridade e de um contexto materialmente mais confortável, convencem-nos de que vivemos permanentemente inseguros — e nós, pouco a pouco, vamos acreditando, aceitando os seus remédios de curandeiros.

Envoltos nos fumos distópicos e invisíveis que emanam dos ecrãs pousados na palma da mão, mergulhamos numa crescente alienação. Muitos jovens, privados de objetivos sólidos, limitam-se a pairar num mundo para lá das nuvens, alheios ao que se desenrola diante dos seus próprios olhos.

Num tempo dominado por modas e inquietações diárias — consequência inevitável de estar vivo — emerge agora uma estranha tendência: jovens que afirmam identificar-se como animais, sobretudo felinos.

Não sei. Mas imagino que, se os nossos ancestrais pudessem observar-nos, se remexeriam de indignação, talvez questionando se valeram a pena os séculos de caminho percorrido até esta modernidade onde começa a instalar-se uma inquietante forma de insanidade — tanto pelo que se faz como pelo que se permite fazer.


© Diário de Trás-os-Montes