Portugal quer ser soberano digital, mas…
As nuvens, por definição, não têm fronteiras. Por isso, há uma certa ironia na expressão "nuvem soberana", pois pareceria que não precisávamos delas. Toda a estratégia digital europeia dos últimos anos tem sido, no fundo, a tentativa de resolver esta contradição e Portugal acaba de publicar a sua própria versão desta resposta, com o nome de Plano Nacional de Nuvem Soberana, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 102/2026 de 27 de maio.
O documento não é mau em si mesmo. Tem uma lógica sensata, ao finalmente pretender classificar os dados do Estado por graus de sensibilidade, exigir mais controlo onde o risco é maior e construir gradualmente uma infraestrutura nacional de dados. Há 30 anos atrás, no Livro Verde para a Sociedade da Informação, este objetivo de classificar a informação do Estado já era um objetivo estratégico que nunca foi prosseguido.
A ideia de que nem todos os dados precisam do mesmo nível de proteção é, de facto, uma das lições mais bem aprendidas da experiência europeia. Um formulário de renovação do cartão de cidadão não precisa das mesmas garantias soberanas do que os sistemas de criptografia das Forças Armadas. O plano vai ainda mais longe ao estabelecer que qualquer processo que receba classificação de impacto significativo, seja na dimensão das pessoas, da estabilidade do Estado ou da exposição de dados, é automaticamente elevado à categoria de maior restrição, com armazenamento exclusivo em território nacional, chaves de encriptação sob controlo do Estado e imunidade contra ordens de interseção estrangeiras. No papel, é uma linha vermelha clara.
Mas o problema não está naquilo que o........
