Opinião: “A Baixa de Coimbra: um laboratório de desigualdades”
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Opinião: “A Baixa de Coimbra: um laboratório de desigualdades”
A 6 de dezembro de 2025 ruiu um edifício na Rua da Fornalhinha, em pleno coração da Baixa de Coimbra. Quando cai um edifício, não se expõe apenas a fragilidade de uma estrutura, mas também a de uma cidade que não cuida de todos por igual. Em poucas ruas, a Baixa concentra uma geografia social contrastante: imóveis abandonados lado a lado com outros reabilitados para alojamento local ou arrendamento a estudantes; negócios tradicionais que resistem junto de estabelecimentos voltados para o visitante; idosos que sobrevivem com baixos rendimentos e que habitam em casas degradadas, enquanto a dinâmica económica da cidade tende a concentrar investimento onde o retorno é maior.
A Baixa é hoje um laboratório da desigualdade urbana. Não porque nela haja diversidade (a diversidade é quase sempre uma riqueza), mas porque essa diversidade está organizada segundo uma hierarquia nítida. Há quem habite o centro por necessidade, quem o explore como investimento, quem o consuma como experiência e quem nele sobreviva em condições cada vez mais precárias.
Essa desigualdade também distorce a forma como a realidade da Baixa é interpretada. Fala-se de decadência ou de revitalização, como se o centro só pudesse ser lido a partir desses dois registos. Mas ambos simplificam. Dizer que a Baixa “está a morrer” apaga as formas de vida, de trabalho e de resistência que ainda a sustentam. Dizer que “renasce” oculta que esse renascimento é seletivo: protege melhor o que produz rendimento do que o que garante permanência.
Seria tentador procurar um culpado: o turismo, os estudantes, os proprietários, o mercado ou o abandono do Estado. Mas a situação atual da Baixa não resulta de uma única causa, nem pode ser resolvida a curto prazo. A sua fragilidade é resultado de processos longos: o envelhecimento da população, a saída de residentes para outras zonas da cidade, a degradação acumulada do edificado, a perda de centralidade do pequeno comércio, rendimentos demasiado baixos para sustentar uma vida digna e uma pressão económica que privilegia os usos mais rentáveis do solo. A isto somam-se políticas urbanas descontínuas e uma dificuldade persistente em articular património, habitação e proteção social. Precisamente por isso, não basta lamentar cada derrocada nem celebrar cada reabilitação.
O que a Baixa exige não é uma resposta milagrosa, mas uma estratégia persistente e plural. Uma estratégia em que o município tenha um papel decisivo, mas não exclusivo; em que a reabilitação do património não se separe da habitação acessível; e em que universidade, proprietários, comércio local e instituições sociais façam parte de um mesmo horizonte de cidade. Uma estratégia deste tipo exige compromissos claros de longo prazo: reabilitar o edificado com critérios de segurança e responsabilidade social, proteger a residência estável face a uma rotação excessiva, sustentar o comércio de proximidade que dá continuidade à vida urbana e reforçar o apoio aos seus habitantes mais vulneráveis.
Redação Diário As Beiras
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