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“Como salsichas fumegantes”

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23.03.2026

Pela calçada da vila alemã, em Columbus, bem no coração de Ohio, deixei-me levar por entre fachadas de tijolo cor de cenoura. Por ali, uma amostra europeia persistia latente, tal como uma abençoada memória proveniente do outro lado do oceano. Numa dessas estreitas ruelas encontrei o Schmidt’s Sausage Haus, encaixado entre duas lojas que prometiam chocolates e ornamentos tradicionais. O restaurante parecia ter qualidade, não fosse a multidão que padecia suspensa na zona envolvente, como que enraizada junto a um pequeno jardim. Espreitei o seu interior. Vislumbrei, sob a luz morna e amarelada dos pequenos candeeiros, mesas de madeira que acolhiam conversas demoradas, canecas de cerveja a erguerem-se pesadas, assim como salsichas fumegantes a desaparecer por entre bocas famintas. Tudo ali convidava à demora, ao abandono da rotina de uma cidade onde todas as estações do ano pareciam espoletar num só dia. Por momentos, juntei-me à espera paciente que se acumulava à porta. No entanto, o tempo, esse maravilhoso espaço que ecoa entre dois momentos, não parecia querer avançar lá dentro. Ninguém se levantava e ninguém cedia o lugar. Resignei-me de tal forma que entrei nas lojas vizinhas, em busca de um presente que talvez amenizasse a agonia da espera. Naquela rua, naquele restaurante, naquelas vitrinas coloridas das lojas, esquecia-se a América do Norte. Bebia-se muito e comia-se devagar, como quem procura suspender o mundo, ainda que por breves instantes. Estamos em finais de março. Foram três semanas intensas de projeto bem findado. Regresso a Portugal, o taxista leva-me a Braga. Constato o choque entre hábitos que já não se reconhecem. No aeroporto que serviu de escala, a pressa serviu-se em fast food, comi sandwich de frango besuntada em picante e batatas fritas. Comida tão dispendiosa quanto intragável. No escritório do cliente, recordo que a variação também foi mínima, comi por diversas vezes hambúrgueres e fatias de pizza diante do portátil, sem pausa nem descanso. Acreditem que cada dia desenhava a minha triste sina. Pedia, engolia, e, finalmente, ia para o quarto dormir meia dúzia de horas. Um ciclo que parecia não querer terminar, tão previsível quanto infalível. A comida perdia o seu propósito, reduzia-se apenas a combustível para o meu corpo, embalada em plástico. Tudo isto se inscreve na errática ideia de ter produtividade. Mas afinal de contas o que é ser produtivo? De tão controverso, este tema sempre me deu muita comichão. No entanto, para os americanos, no seu geral, a equação parece bastante simples. Se ficares menos tempo à mesa, mais tempo terás para produzir! Mas, produzir o quê? Ora bolas, estas ideias são tão brilhantes quanto falaciosas. Afinal de contas a vida é sempre mais fácil na teoria de quem não faz nada do que na prática de quem o faz, não é verdade? Por aquelas terras trabalha-se muito, é certo, mas nem sempre melhor. Há algo que me inquieta quando observo alguém a devorar um hambúrguer em poucos segundos, apenas para permanecer mais uma ou duas horas diante de um ecrã, lamber as botas do patrão, ou até à espera de uma inspiração divina que nunca chega. Se este é o modelo da eficiência americano, é um ideal que não pretendo abraçar. Regresso àquela vila alemã. Sinto que lugares como este adquirem uma ressonância quase mágica, profundamente simbólica. São ilhas de silêncio e bem-estar, num país em permanente sufoco e correria. Mesmo sem grande afinidade pela cozinha alemã, senti que até aquela comida parecia recuperar a sua verdadeira essência, como se algo antigo e praticamente esquecido regressasse por instantes. E foi precisamente essa raridade que me conduziu a esta inquietação inevitável. Afinal de contas como se mede a produtividade? Serão os portugueses menos produtivos do que os outros? Como se chega ao ponto em que sentar-se à mesa se torna uma exceção à regra e o número de hambúrgueres consumidos apressadamente diante de um ecrã se torna uma variável essencial da equação? Em Braga, como noutras cidades do meu país, felizmente, persiste um outro ritual. Comer continua a ser, não raras vezes, uma pausa bem merecida, um instante entre o encontro e a conversa em modo de café. É, talvez, essa forma discreta de resistência que a cultura portuguesa (a minha pelo menos) possui, perante um mundo onde a pressa se infiltra, as cadeias de fast food se propagam e as pessoas já não interessam a ninguém. Depois desta viagem de trabalho, nem sempre fácil diga-se, fica-me a convicção de que o meu país e a minha cidade valem ouro e é nestes pequenos prazeres que devemos ancorar, com mais firmeza, a nossa ideia de vida.

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