Raízen e o horóscopo do dia?
A maior recuperação extrajudicial do país foi marcada por um fato relevante e uma nota à imprensa que a atribuiu as dificuldades macroeconômicas e ambientais. Taxas de juros altas são um grande desafio, não há dúvidas quanto a isso. No entanto, a falta de autocrítica diante dos dilemas chamou a atenção.
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O Safra liderou uma oferta de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) da Raízen no fim de 2023. Naquele momento, a Selic já estava em 12,25% (pouco distante do percentual atual). O objetivo da capitalização era turbinar a capacidade de moagem da companhia de Rubens Ometto, por meio da compra de usinas.
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Questões climáticas e a alta dos juros não foram desafios simples. Outros players enfrentaram a adversidade com mais assertividade e proatividade. Ao contrário da Raízen, que congelou diante de uma sequência de balanços que pareciam um thriller, outras empresas, como a FS Bio, souberam reconhecer suas dificuldades e agir. A empresa de etanol de milho chegou a ter uma alavancagem de quase 8x, mas, em pouco tempo, reduziu para 3x. O que ela fez? Diminuiu custos, recomprou dívidas e suspendeu dividendos. Pegou o manche e puxou o bico do avião para cima, assumindo o controle de suas decisões e comunicando aos investidores: mudamos a rota, mas chegaremos em segurança.
Os comunicados da empresa de Ometto assemelham-se aos de um piloto que explica porque o avião está caindo, atribuindo os problemas a questões ambientais, como se não pudesse alterar a rota. Talvez, os passageiros aceitassem chegar mais tarde. Porém, ao se isentar, Ometto pega o salva-vidas e coloca os investidores para pagar as consequências de seus erros. Os credores de CRAs acabarão sacrificados para salvar a companhia. Os acionistas minoritários testemunharão o agrupamento de ações e a sua diluição.
A Shell, por sua vez, pelo menos aportou R$ 3,5 bilhões na empresa. Já Ometto, que possui uma fortuna pessoal estimada em 1,5 bilhão de dólares, não acompanhou o parceiro; colocou apenas 500 milhões. A Raízen não entendeu que seu negócio é biocombustíveis e não cana-de-açúcar. O etanol de milho já responde por 20% do mercado, com um custo de produção mais barato. O comunicado da Raízen não deixa dúvida sobre a falta de autocrítica e revela uma companhia que pouco aprendeu com os erros que geraram uma dívida de 65 bilhões.
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Afinal, para os gestores, os problemas foram: o clima, a inflação na Argentina, os juros e, quem sabe, o horóscopo do dia.
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