O deserto informacional que fragiliza a democracia
Wendel Palhares — vice-presidente do Conselho Nacional de Secretarias de Estado da Comunicação e secretário de Comunicação de Alagoas
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Imagine morar em uma cidade em que a informação mal chega. Você não sabe como acessar um serviço público, que o posto de saúde ampliou o atendimento, que houve aumento de uma doença, que o ônibus mudou de horário ou que surgiu uma oportunidade de trabalho.
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Também não vê sua comunidade representada. Não conhece suas próprias histórias, não acompanha o que acontece na Câmara de Vereadores, não entende para onde vai o dinheiro público. E não é falta de interesse. É falta de acesso.
Essa ausência cobra um preço: mais erros, desperdício de tempo, menos pertencimento, participação reduzida e maior vulnerabilidade. Isso tem nome: desertos informacionais.
Trata-se de uma falha de infraestrutura democrática — um apagão local de informação confiável, plural e útil. Mais do que ausência, é exclusão ativa.
Desde 2017, o Atlas da Notícia, iniciativa do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo), mapeia esse fenômeno: municípios sem nenhum veículo jornalístico ativo. Hoje, cerca de 50 milhões de brasileiros vivem em desertos ou semidesertos de notícias.
Em Alagoas, o cenário é ainda mais desafiador. São 49 municípios nessa condição, o equivalente a 48% do estado. Houve avanço recente, com 13 cidades saindo desse quadro graças ao crescimento do jornalismo digital e das rádios.
Não se trata apenas de geografia, mas de estrutura. Falar em "falta de informação" sugere um vazio casual. Não é o caso. O que existe é concentração de poder informacional.
A capacidade de produzir, validar e distribuir informação está concentrada em poucos centros e vozes. Enquanto isso, territórios inteiros permanecem à margem, dependentes de veículos de cidades vizinhas ou de conteúdos fragmentados nas redes sociais.
Isso é desigualdade estrutural. Por isso, não basta olhar apenas o mapa. Existem desertos mesmo onde há veículos: desertos de pauta, de representação e de voz. Uma cidade pode ter um site de notícias e, ainda assim, permanecer em silêncio sobre mulheres, população negra, comunidades tradicionais, periferias ou população LGBTQIA . Pode haver cobertura sem pluralidade.
Quando determinados grupos não aparecem nem disputam sentido na esfera pública, não há ausência de mídia, mas ausência de poder. Quem controla a narrativa define o que é reconhecido como realidade.
É nesse contexto que surge, em Alagoas, o programa Plural. Mais do que uma iniciativa de apoio, trata-se de uma política pública voltada a enfrentar desigualdades estruturais na comunicação, atuando em três dimensões: acesso, produção e circulação de informações com pluralidade, transparência e compromisso com a verdade.
A proposta é ampliar quem pode produzir conteúdo, contar histórias e disputar espaço no debate público. Isso inclui mídias negras, periféricas, religiosas, de comunidades tradicionais, diversidade sexual, etária e iniciativas independentes.
Há também um problema concreto: em muitas cidades, a comunicação local não se sustenta por falta de qualificação técnica, educação financeira e conhecimento de modelos de negócio. Em outros casos, limita-se ao sensacionalismo ou ao entretenimento, sem compromisso consistente com a informação pública.
Nas lacunas desse cenário, proliferam perfis em redes sociais com origem e propósito pouco claros. Plataformas cumprem parte do papel de informar, mas de forma fragmentada e, muitas vezes, sem responsabilidade editorial.
Informar não é apenas publicar. É organizar, verificar, contextualizar e assumir compromisso com a comunidade.
É justamente aí que o Plural se posiciona. Como incubadora, oferece formação, suporte técnico e infraestrutura para comunicadores sem acesso a recursos básicos.
Desertos informacionais não nascem apenas da ausência de veículos, mas de um modelo que concentra a capacidade de comunicar em quem já dispõe de recursos.
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Por isso, diferentes países tratam o tema como política pública. Dinamarca, Suécia e Finlândia estruturaram sistemas de apoio ao jornalismo local. Nos Estados Unidos, discutem-se incentivos fiscais. A União Europeia financia redes de mídia comunitária.
No Brasil, o tema começa a ganhar forma. A Bahia avançou com iniciativas de fortalecimento de mídias locais e comunitárias, em diálogo com a reconstrução de políticas públicas de comunicação.
Os desertos de notícias têm uma característica perigosa: são invisíveis. Onde não há jornal, não há quem denuncie sua ausência. O problema se esconde dentro de si mesmo e, por isso, precisa sair do debate técnico e entrar na agenda pública.
No fim, a pergunta é simples: quem conta a história da sua cidade — e a serviço de quem?
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