Conversa comigo mesmo
Ultimamente, na hora de dormir, tenho conversando bastante comigo mesmo. A velha amiga insônia abraça minha cabeça e a voz sussurrante, firme e sincera, me faz companhia:
- Como foi que conseguimos dormir ontem?
- Estávamos conversando e, de repente, vimos uma campina, ao fundo uma enorme cachoeira.
- Ah sim...E tinha um cachorro latindo pensamentos.
- Verdade...Ele apontava com o focinho uma cadeira de balanço. E sentamos na cadeira para sentir a água passar bem perto, o barulhinho gostoso: rec, rec, rec...
- O certo era virar de lado e dormir.
- A gente nunca conseguiu isso. Desde sempre, primeiro um emaranhado de pensamentos é só bem depois o sono chegava.
- Mas não demorava tanto.
- Era rápido, mas éramos jovens.
- Como estamos?
- Já estivemos melhor
- Em que sentido?
- Saúde, principalmente.
- Envelhecemos...
- Sim, e isso incomoda.
- A opção é a morte.
- Só por isso me conformo.
- Alguma dor estranha?
- Pouca, quase nada.
- Nariz entupido?
- Às vezes, já teve pior
- Exames deram bom resultados, não foi?
- Tirando o diabetes e essa ameaça de ficar cego, o resto está muito bem.
- Então não reclame.
- Não estou reclamando. Sei lá, acho que é saudades...
- Isso é certo, os amigos, os jogos de futebol no campinho do Taveirópolis, os bailes aos sábados, a irmã do Berico.
- A irmã do Berico? Ela te ignorava!
- Eu sei, mas sempre fui de sonhar.
- Que fim terá levado?
- A irmã do........
