Pensar como uma só humanidade
Há épocas que ampliam o mundo. Outras ampliam a consciência humana sobre ele. As primeiras mudam os mapas. As segundas mudam a própria maneira como os seres humanos compreendem seu lugar na história.
O século XVI foi o século das grandes navegações e dos descobrimentos marítimos. As viagens de portugueses e espanhóis ligaram continentes que durante milênios haviam vivido relativamente separados e inauguraram a primeira experiência verdadeiramente global da humanidade. Mercadorias e impérios, culturas e crenças, conhecimentos e epidemias passaram a circular numa escala desconhecida até então. O mundo tornou-se maior e, paradoxalmente, mais próximo.
O século XVII ensinou à humanidade a olhar para o universo com outros olhos. A Revolução Científica substituiu as explicações herdadas da tradição pela observação, pela experimentação e pela razão. Galileu apontou o telescópio para os céus. Kepler decifrou o movimento dos planetas. Newton revelou leis que pareciam governar tanto a queda de uma maçã quanto o curso dos corpos celestes. A ciência moderna nasceu no instante em que o universo deixou de ser apenas contemplado e passou a ser investigado.
O século XVIII pôs em marcha outra transformação decisiva. O Iluminismo questionou monarquias absolutas, privilégios hereditários e verdades tidas como intocáveis. A independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa introduziram ideias que atravessariam os séculos seguintes: cidadania, direitos individuais, representação política, igualdade perante a lei e soberania popular. A liberdade deixou de ser privilégio de poucos e passou a constituir aspiração de muitos.
O século XIX reorganizou a economia mundial. A Revolução Industrial transformou o trabalho, a produção, os transportes e as cidades. As ferrovias encurtaram distâncias. As máquinas multiplicaram a produtividade. A eletricidade alterou a vida cotidiana. A ciência consolidou-se como motor do progresso material. Pela primeira vez, a humanidade passou a acreditar que poderia transformar sistematicamente o próprio futuro.
O século XX levou essa capacidade de transformação a uma escala sem precedentes. Foi o século das guerras mundiais e dos totalitarismos, mas também da expansão da educação, da medicina, da aviação, das telecomunicações, da energia nuclear, da informática, da exploração espacial e das instituições multilaterais. Foi o século em que a humanidade descobriu os antibióticos, decifrou os segredos do átomo, enviou seres humanos à Lua e, pela primeira vez, contemplou a própria Terra vista do espaço. Nunca havíamos acumulado tanto conhecimento, tanto poder e tamanha capacidade de intervir sobre o planeta e sobre nós mesmos.
Cada um desses séculos deixou uma herança. Cada um ofereceu uma resposta predominante aos desafios do seu tempo.
O século XXI parece enfrentar uma pergunta diferente e talvez mais difícil do que todas as anteriores: como administrar um mundo que se tornou objetivamente interdependente sem dispor de instituições, valores e formas de consciência compatíveis com essa interdependência?
O mundo ficou pequeno
Poucas vezes os fatos apontaram de maneira tão convergente para uma mesma direção. A mudança climática ignora fronteiras nacionais. As pandemias deslocam-se entre continentes na velocidade dos aviões. Os........
