Jules e Jim correm antes que a juventude termine
Vi Jules et Jim pela primeira vez em 1974, aos quinze anos. O Brasil vivia os anos de chumbo, a censura prévia examinava roteiros, letras de música, capas de revista. Assisti ao filme de François Truffaut numa sessão de cineclube, sabendo que muito daquilo que a tela francesa permitia dizer, o país onde crescia proibia. Essa foi a primeira lição do filme, antes mesmo de qualquer cena: existiam lugares onde a arte discutia sem correntes aquilo que, entre nós, ainda precisava ser sussurrado.
As primeiras imagens chegaram antes que qualquer interpretação fosse possível. Aos quinze anos, mal acompanhava a velocidade daquela narração, os cortes inesperados, a leveza com que Jules e Jim caminhavam pelas ruas, sorriam, conversavam e descobriam o mundo. Tudo parecia distante do cinema que frequentava. Não havia personagens moldados para vencer ou perder. Existiam dois amigos caminhando pela mesma paisagem humana, descobrindo juntos a beleza, a dúvida e a inquietação. Antes mesmo de Catherine surgir na tela, aquela amizade já ocupava o centro da narrativa. Saí da sessão sem compreender inteiramente o filme, mas com a estranha sensação de que ele continuaria crescendo dentro de mim durante muitos anos.
O romance que esperou sete anos
François Truffaut também percorreu um longo caminho até chegar a Jules et Jim. Ainda crítico da Cahiers du Cinéma, encontrou por acaso, em 1955, o romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché. Ficou tão impressionado que prometeu a si mesmo transformá-lo em filme quando tivesse maturidade suficiente para fazê-lo. Cumpriu a promessa sete anos depois, já consagrado por Os Incompreendidos e Atirem no Pianista. O lançamento de Jules et Jim, em 1962, representou um dos momentos mais luminosos da Nouvelle Vague e ajudou a consolidar uma maneira inteiramente nova de contar histórias no cinema.
Com o passar das décadas, descobri que a ficção escondia personagens reais. Jim era inspirado no próprio Henri-Pierre Roché. Jules tinha como referência o escritor alemão Franz Hessel, perseguido pelo nazismo. Catherine nascera da personalidade intensa de Helen Hessel, que décadas mais tarde escreveria a Truffaut agradecendo-lhe por haver preservado, na tela, a verdade emocional daqueles acontecimentos. Passei a olhar cada sequência sabendo que pessoas de carne e osso haviam amado, sofrido e construído aquela história muito antes de ela chegar aos cinemas.
Somente muitos anos depois compreendi que Jules et Jim estreava justamente quando o mundo começava a mudar de direção. Novas formas de pensar a política, a arte e os costumes atravessavam universidades, livrarias, cafés e salas de cinema. Poucos anos mais tarde, os Beatles mudariam definitivamente a música popular, Paris viveria as jornadas de Maio de 1968, Woodstock transformaria uma fazenda norte-americana em símbolo de uma geração e a contracultura passaria a questionar valores recebidos como verdades permanentes. Revendo o filme hoje, torna-se difícil acreditar que Truffaut não tivesse captado, ainda em estado nascente, a atmosfera que marcaria toda aquela década. A liberdade que percorre seus personagens parece antecipar o desejo coletivo de experimentar outras formas de viver, criar e amar.
O filme atravessou a música brasileira
Não escrevo este texto para celebrar apenas um clássico da Nouvelle Vague. Enquanto relia antigas anotações sobre Jules et Jim, um episódio voltou inesperadamente à memória. Foi meu amigo Julinho, grande músico e editor, quem chamou minha atenção para um detalhe que eu desconhecia. Comentou que parte da sensibilidade artística dos fundadores do Clube da Esquina havia sido profundamente tocada por aquele filme de François Truffaut. Entrei então na biblioteca e encontrei meu velho exemplar de Os sonhos não envelhecem — Histórias do Clube da Esquina, de Márcio Borges. Bastaram poucas páginas para compreender que aquela não era uma curiosidade de bastidores. Era um momento decisivo........
