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Crônica do cárcere: milionário sem tempo, condenado a gastar o que resta de vida no luxo agora inútil do arrependimento

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27.08.2025

Haverá condenações que começarão muito antes da cela. Quando o martelo do juiz cair, não atingirá apenas a liberdade: espatifará também a coreografia de quem terá passado os últimos seis anos convertendo minutos em milhões, selfies em sociedades, voos em vínculos.

A dor adicional não estará no ferro da grade, mas na súbita inutilidade do luxo: Centurion Card, emitido pela American Express em repouso forçado; jet skis entediados; jatinhos de empresários amigos imóveis sobre a própria sombra. Será a economia afetiva da opulência entrando em recessão.

Quatro décadas de pena serão um oceano de horas, e nele hão de boiar, como garrafas sem mensagem, os 51 imóveis que talvez já não possam ser visitados sem escolta — e sem relógio de ouro branco cravejado de diamantes, bem no clima das mil e uma noites orientais.

Coberturas com piscinas infinitas que, de tão infinitas, perderão até a noção de borda; casas de filhos no Lago Sul que aguardarão o dono como quem aguarda chuva imóvel; apartamentos no Texas, na Barra da Tijuca e em Angra que aprenderão, enfim, o idioma universal das portas fechadas.

E logo se descobrirá que ninguém conseguirá preparar um milionário tardio para a burocracia da privação.

A fortuna adquirida a jato — e a jato celebrada — mostrará hábitos próprios. Acordava cedo para gravar vídeos falsos; almoçava em três fusos; pagava a conta antes de o garçom oferecer a sobremesa.

Quando a liberdade sair de cena, o dinheiro perderá coordenação motora. Como usar dezenas de milhões se cada despesa precisará de carimbo, se cada transferência terá de visitar um pátio, se cada investimento fará fila em corredor? Sofrimento será também a perda do improviso. Aquele “vamos agora?” se transformará em “nem pensar, o sistema prisional não permite”.

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