Cem anos de Globo, cem anos de alienação coletiva
Em O Ser e o Nada, Jean-Paul Sartre nos lembra que o vazio não é mera ausência, mas presença corrosiva, capaz de se disfarçar em sentido. O nada, escreve o filósofo, é a negação da autenticidade, a recusa de assumir a liberdade e o compromisso diante da realidade. Essa leitura existencial parece traduzir com precisão o que a Globo, ao celebrar os cem anos de O Globo, oferece ao país: uma festa de slogans que anuncia futuro, mas apenas reedita o passado.
A mensagem publicitária, veiculada com pompa e vozes conhecidas — Regina, Tadeu, Chico, Jô, Paulo —, gira em torno de uma palavra-chave: “futuro”. Contudo, o que chega ao espectador é apenas uma colagem de frases desconexas, que falam do porvir como quem revisita um álbum de fotografias antigas.
O futuro, nesse discurso, é preto e branco, é colorido, é lido, é ouvido. Mas jamais é pensado. Muito menos vivido.
A Globo transformou o futuro em souvenir do passado.
Há, nesse enredo publicitário, um contrassenso escandaloso: falar de futuro exibindo o passado. O recurso, em vez de iluminar a imaginação coletiva, desnuda a incapacidade da emissora de se conectar ao presente do país.
O texto, com sua cadência de marketing, não oferece um gesto concreto sobre o que esperar nem sobre como enfrentar as urgências nacionais — desigualdade, violência, degradação ambiental, polarização política.
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