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A última carta escrita por nossas mãos

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Em janeiro de 2025, as escolas públicas da Califórnia começaram a cumprir uma determinação que parecia ter chegado com um século de atraso: alunos do primeiro ao sexto ano voltariam a aprender escrita cursiva. A decisão merece atenção justamente por ocorrer no estado que abriga o Vale do Silício, território onde prosperaram algumas das tecnologias que afastaram lápis, caneta, papel e caderno de nossa vida diária.

Crianças que conversam com inteligências artificiais, gravam vídeos e encontram qualquer informação em segundos reaprendiam um gesto antiquíssimo: encostar a ponta do lápis numa folha e conduzi-la até que o pensamento adquirisse uma forma reconhecível. O episódio contém uma pergunta maior que qualquer currículo escolar: estaremos formando a última geração que saberá escrever à mão?

A pergunta me leva muito longe, até os escribas que, por volta de 3.200 a.C., pressionavam estiletes sobre argila na Mesopotâmia para registrar cereais, impostos e dívidas. Egípcios escreveram sobre papiros, chineses fizeram da caligrafia uma arte, monges medievais consumiram anos copiando manuscritos, navegadores registraram mares desconhecidos, soldados escreveram de trincheiras e condenados à morte deixaram algumas linhas antes de enfrentar o último amanhecer.

Cada época encontrou uma superfície para receber palavras, e durante milênios o pensamento humano precisou atravessar o corpo para chegar até ela. Entre a ideia e sua permanência existia uma mão.

Essa mão deixou documentos diante dos quais gosto de permanecer algum tempo. Beethoven escreveu a lápis, em julho de 1812, a célebre carta à sua “Amada Imortal”, cuja identidade continua desafiando biógrafos mais de dois séculos depois. São páginas nas quais a própria irregularidade dos traços participa da emoção; conhecemos o compositor também pela urgência física com que escreveu aquilo que jamais chegou às mãos da destinatária.

Cartas de amor, despedidas, pedidos de perdão, declarações políticas e bilhetes enviados de prisões atravessaram oceanos e guerras dentro de envelopes. Alguns sobreviveram aos destinatários, aos remetentes, às casas onde foram guardados e até aos países nos quais........

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