A invenção dos inimigos
A democracia começa a se deformar quando líderes políticos abandonam o debate e passam a governar movidos pela lógica da hostilidade permanente. O adversário deixa de ser alguém a ser convencido. Passa a ser tratado como ameaça moral, obstáculo político ou inimigo a ser neutralizado.
O problema não está apenas na radicalização verbal. Está na transformação da política numa estrutura emocional baseada em ressentimento, intolerância e recusa deliberada ao diálogo. Poucos filósofos compreenderam isso com tanta clareza quanto Platão.
No início de A República, uma cena aparentemente simples contém uma das advertências políticas mais atuais já escritas. Após um festival religioso no Pireu, Sócrates e Glauco preparam-se para retornar à cidade quando são interceptados por Polemarco e um grupo de acompanhantes.
A conversa começa em tom cordial. Mas muda rapidamente de natureza.
— Sócrates, vocês já vão embora?
— Sim, estamos de partida.
— Mas vocês perceberam quantos somos?
A frase altera completamente o sentido do diálogo. O argumento deixa de ser racional. Passa a ser numérico. A autoridade nasce da pressão coletiva, da força do grupo, da intimidação silenciosa produzida pela maioria.
Sócrates ainda tenta preservar o espaço da razão:
— E se........
