A bolsa ou a vida
O Brasil inventou uma convivência brutal: celebra diariamente a valorização de patrimônios enquanto milhões de trabalhadores precisam conferir o saldo bancário antes de comprar ovos. Nas telas financeiras, números variam em segundos; nas cozinhas pobres, a conta é feita diante de uma panela. A mesma economia produz ambos os resultados e administra essa contradição como rotina.
Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1962, A bolsa & a vida, livro de crônicas atento tanto às notícias do mundo quanto aos pequenos acontecimentos domésticos. Numa delas, uma bolsa esquecida num ônibus desencadeia uma investigação delicada sobre sua dona. Sessenta e quatro anos depois, o título convida a uma pergunta menos literária: que vida cabe em cada bolsa brasileira?
Em setembro, a B3 reunia 5,886 milhões de investidores e movimentava, em ações, R$ 33,4 bilhões por dia. Neste outubro, o Bolsa Família atende 19,3 milhões de famílias, com repasses próximos de R$ 15 bilhões mensais. Negociações de ativos e transferências de renda medem fenômenos distintos; compará-las exige honestidade estatística e, sobretudo, responsabilidade social.
Seria intelectualmente preguiçoso tratar........
