Sob o terror da ditadura, Soledad Barrett canta
Nesta semana, em que o golpe de primeiro de abril de 1964 volta como um pesadelo sem fim, republico uma página do livro “Soledad no Recife” nestas linhas:
“Ouve-se então uma voz que canta ‘La navidad de Juanito Laguna’. Ninguém ali, na praia de Piedade, ainda a conhece. Se fácil seria rejeitá-la como uma canção desconhecida, se fácil seria não ouvir uma língua a que não estão acostumados, porque não é o inglês, a língua natural daqueles religiosos norte-americanos, fácil não é se descolar e deslocar da voz e da melodia. Então ocorre na festa primeiro um falar baixo, um murmúrio débil, até que se faça um silêncio não pedido, um silêncio que os próprios silenciados não percebem, um silêncio como de voyeur, de que ouve atrás da porta o sussurro de uma intimidade vizinha.
‘Juanito de la inocencia
canta en dormido Laguna
así por dentro del sueño
pasa llorando la luna’.
É doce, agradável e bem-vinda, e aqui, para esses níveis de sentimento, difícil é distinguir a voz que canta da melodia. Quem conhece um bom intérprete sabe. Há intérpretes que gravam tão bem uma canção, que a tornam carne e osso de uma só vida. Impossível separá-los, ou não será a mesma canção. Porque Soledad não é só a mulher bonita de um ponto de vista físico, cuja fotografia revela apenas uma estação do seu ser. Uma estação imóvel de um peito dinâmico. Bonita de tal modo, que se dirá do fotógrafo o que se diz do mau desenhista, ‘como isto não parece com ela ... não saiu parecido’. E se pedirá então ao fotógrafo o impossível, a saber, que a máquina, a mecânica, reproduza um ser, a textura, cor e delicadeza da orquídea, da pessoa mesma. Como se fosse possível da flor um close que a isolasse do ar que ela respira, do campo em torno, do cheiro que exala, em resumo, como se fosse possível reproduzir o complexo, a conspiração de sentidos que se dirigem para um único fim, a pessoa, o ser vivo, inalienável, poderoso em nos despertar amor, afeição, paixão, tara e paz, que buscamos como a uma miragem. Ainda assim, se sabemos que na flor há um ser........
