Secretário americano aparece vestido de “trans”: é a versão mais trabalhada de Nikole, a trans-fake de Nikolas Ferreira
Em Quantico, secretário de Defesa dos Estados Unidos transforma corpo, gênero, aparência e comportamento em critérios de pertencimento militar — e a palavra “warrior” passa a funcionar como fronteira entre quem merece pertencer e quem pode ser descartado
Em 30 de setembro, durante seu discurso de State of the Force na Base do Corpo de Fuzileiros Navais em Quantico, na Virgínia, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, condensou em uma frase a arquitetura simbólica de uma política que pretende redefinir não apenas a organização das Forças Armadas, mas também o corpo considerado legítimo para integrar sua imagem de soldado.
“No fatties, no trannies, no beardos, no weirdos, no wimps, no radicals. Just warriors”, afirmou Hegseth. Em tradução que preserva a carga ofensiva dos termos, a formulação pode ser lida como: “Nada de gordos, nada de travecos, nada de barbudos, nada de esquisitos, nada de fracotes, nada de radicais. Apenas guerreiros”. A expressão trannies é uma ofensa dirigida a pessoas trans; sua tradução literal, portanto, não deve ser confundida com a denominação respeitosa de pessoas trans (veja Manifesto Travesti – YORK, 2020).
A frase não aparece isolada: Hegseth a apresentou como uma espécie de “tradução simples” de sua declaração anterior de que o Departamento de Defesa já não seria “woke” nem “weak”. Na mesma intervenção, afirmou que o foco das formações militares deveria estar em treinamento, prontidão, responsabilização, disciplina e letalidade. (The Guardian)
É com essa passagem que o discurso se torna particularmente revelador para uma leitura semiótica. O problema não está apenas no insulto, mas na operação de classificação.
Hegseth organiza uma cadeia de nomes que funciona por exclusão: gordos, pessoas trans, barbudos, “esquisitos”, “fracotes” e “radicais” são colocados de um lado; warriors, os guerreiros, do outro. A palavra “guerreiro” deixa de designar exclusivamente uma função militar e passa a operar como signo de pertencimento.
O guerreiro não é apenas aquele que combate, é aquele que corresponde ao modelo corporal, comportamental e ideológico previamente autorizado — físico de atleta (sic).
A oposição produzida é, portanto, menos entre soldado e civil do que entre corpos reconhecíveis e corpos suspeitos.
“Fatties”, “trannies”, “beardos”, “weirdos” e “wimps” não constituem uma categoria homogênea. Uma palavra remete ao peso corporal; outra, à identidade de gênero; outra, à aparência; outras, ao comportamento ou à suposta insuficiência física e moral.
O que as reúne é a transformação da diferença em marca de inadequação, e o procedimento........
