Quem pode aparecer no retrato do poder?
Homens de terno, alinhados em torno de uma mesa, diante de um prédio público, em um gabinete, num tribunal, numa empresa, numa igreja, numa cerimônia. Eles apertam as mãos, conversam, sorriem, posam. A fotografia muda, mas os corpos parecem pertencer sempre à mesma família simbólica. São homens que se reconhecem, que circulam entre si, que sabem como chegar, como cumprimentar, como ocupar uma cadeira e, sobretudo, que raramente precisam explicar por que estão naquele lugar.
É disso que tenho falado quando penso na chamada foto oficial. Ela parece apenas um registro, mas também conta uma história sobre quem pode ocupar o espaço público como alguém autorizado. A fotografia mostra uma reunião, mas também registra uma espécie de pacto silencioso. Pierre Bourdieu já nos ensinou que o poder se inscreve nos corpos, nos gestos, na roupa, na postura e nas formas de circulação. Eve Kosofsky Sedgwick chamou atenção para a homossociabilidade, essa rede de reconhecimento entre homens que também participa da construção das relações de poder. Cida Bento, ao pensar os pactos narcísicos da branquitude, nos oferece outra ferramenta para perceber como determinados privilégios se preservam justamente porque os semelhantes se reconhecem e se legitimam entre si, assim, quando uma travesti entra nessa fotografia, alguma coisa muda.
Não necessariamente porque alguém diga uma palavra ofensiva. Muitas vezes, a mudança acontece antes que qualquer palavra seja dita. Está no corpo que recua, no olhar que se desloca, na conversa que termina rápido demais, na pessoa que encontra uma razão para não se........
