O algoritmo já decidiu a eleição de 2026?
Da Cambridge Analytica ao Team Jorge. Da NSO à Cognyte. Da Abin paralela à ascensão da inteligência artificial generativa. Uma investigação sobre o surgimento de uma indústria global capaz de vender influência, vigilância, simulação social e manipulação cognitiva como serviços privados. O problema não é apenas a desinformação. É a privatização da capacidade de produzir realidade política.
O algoritmo já decidiu a eleição de 2026?
A pergunta parece exagerada. Afinal, eleições continuam sendo disputadas por candidatos, partidos, recursos financeiros, alianças políticas, programas de governo e capacidade de mobilização social. Nenhum algoritmo vota. Nenhuma inteligência artificial comparece às urnas. Nenhuma plataforma digital substitui, por si só, a decisão de milhões de eleitores. Sob esse ponto de vista, a resposta mais imediata seria simples: não, o algoritmo não decidiu a eleição de 2026.
Mas talvez essa seja a pergunta errada.
Ao longo da última década, o debate público sobre democracia digital foi dominado por expressões como fake news, bolhas informacionais, desinformação, robôs e inteligência artificial. Embora importantes, essas categorias frequentemente descrevem os sintomas sem alcançar a estrutura que os produz. O foco excessivo nos conteúdos faz com que o olhar se desloque para aquilo que circula, enquanto permanece invisível a arquitetura que organiza a circulação. Discute-se a mensagem. Pouco se discute a infraestrutura de poder que determina quem a produz, quem a amplifica, quem a financia e quem se beneficia de seus efeitos políticos.
Essa limitação ficou evidente em uma sucessão de episódios que marcaram a política internacional contemporânea. O escândalo da Cambridge Analytica revelou a utilização de dados pessoais de milhões de usuários para fins de segmentação política. O Team Jorge expôs a existência de estruturas privadas capazes de operar milhares de identidades artificiais em múltiplas plataformas. O Pegasus, desenvolvido pela empresa israelense NSO Group, tornou-se símbolo global da transformação da vigilância em serviço comercial. Mais recentemente, as investigações conduzidas pelas autoridades francesas sobre a atuação da BlackCore em diferentes processos eleitorais mostraram que operações de influência podem atravessar fronteiras nacionais sem que seus financiadores sejam facilmente identificados. Em comum, todos esses casos apontam para uma mudança histórica mais profunda do que normalmente se reconhece.
O que está em curso não é apenas a disseminação de informações falsas nem o avanço da inteligência artificial sobre a esfera pública. Trata-se de uma transformação mais profunda, que desloca capacidades historicamente associadas ao poder político para uma nova infraestrutura de influência cuja escala, alcance e funcionamento ainda estão longe de ser plenamente compreendidos.
Essa transformação altera profundamente a natureza da disputa democrática. Durante grande parte do século XX, o poder político dependia da capacidade de controlar territórios, recursos econômicos, meios de comunicação e instituições. No século XXI, uma dimensão adicional passou a ocupar posição estratégica: a capacidade de moldar ambientes cognitivos. Em outras palavras, influenciar não apenas o que as pessoas pensam, mas as condições sob as quais elas percebem, interpretam e atribuem sentido à realidade política.
É nesse ponto que a pergunta do título revela sua insuficiência. O risco para a democracia brasileira em 2026 não está em saber se um algoritmo decidirá a eleição. O risco está em compreender que algoritmos, plataformas, sistemas de vigilância, inteligência artificial e operações de influência passaram a integrar uma infraestrutura privada de poder cuja capacidade de interferência cresce em velocidade superior à capacidade das instituições democráticas de compreendê-la, regulá-la ou controlá-la.
O problema, portanto, não é apenas a desinformação.
É a privatização da capacidade de produzir realidade política.
Quando a influência virou mercado
A ideia de que eleições podem ser influenciadas por interesses econômicos, grupos de pressão ou campanhas de propaganda está longe de ser novidade. O que mudou no século XXI não foi a existência da influência política, mas a sua transformação em mercadoria. Pela primeira vez na história, capacidades antes associadas a estruturas estatais de inteligência, guerra psicológica e operações estratégicas passaram a ser oferecidas por empresas privadas em escala global. O que está emergindo não é apenas um novo conjunto de tecnologias. É um novo mercado.
O fim da Guerra Fria e a expansão da globalização alteraram esse cenário. A partir dos anos 1990, diversas funções tradicionalmente associadas ao Estado passaram por processos de terceirização. Empresas privadas assumiram atividades relacionadas à segurança, inteligência, logística militar e análise de dados. As guerras do Afeganistão e do Iraque aceleraram esse movimento ao ampliar o papel de contratadas privadas em funções sensíveis da política de segurança internacional. Ao mesmo tempo, a internet transformava dados em ativo econômico e informação em recurso estratégico.
Foi nesse ambiente que surgiu o SCL Group. Fundado no Reino Unido, o grupo se especializou em operações psicológicas, influência estratégica e comunicação comportamental para governos, Forças Armadas e campanhas políticas. Em materiais promocionais apresentados a clientes, a empresa afirmava possuir experiência em mais de 60 países e atuar em contextos eleitorais, militares e de segurança. A influência já não aparecia apenas como instrumento político.........
