O espelho do poder
A extrema direita não vive apenas de ideias. Vive também de afetos. E talvez seja justamente por isso que sua força política não possa ser compreendida apenas pela racionalidade dos seus discursos. Há alguma coisa anterior à escolha política: o ressentimento, a sensação de perda, a humilhação e o desejo de recuperar, ainda que imaginariamente, uma potência que se sente roubada.
É aqui que a cientista política norte-americana Wendy Brown nos ajuda a pensar o presente. Em sua crítica à racionalidade neoliberal, Brown mostra como a corrosão do mundo comum e a transformação de sujeitos em indivíduos concorrentes produzem uma experiência de desamparo político. Quando o espaço público deixa de ser percebido como lugar de construção coletiva, a frustração não desaparece. Ela procura um culpado.
Freud já havia percebido que a identificação pode oferecer ao indivíduo algo que ele não encontra em si mesmo. O líder passa a funcionar como uma espécie de espelho: nele, o sujeito enxerga a força que gostaria de possuir, a autoridade que gostaria de exercer, a potência que sente ter perdido. Não recebe essa potência de fato. Recebe sua imagem.
É aí que a política da extrema direita encontra terreno fértil. Ela oferece ao ressentido não necessariamente uma saída para sua falta, mas alguém sobre quem descarregá-la. O outro passa a ser o responsável por tudo aquilo que não deu certo: o pobre, o estrangeiro, a esquerda, as instituições, a imprensa, o Judiciário, qualquer um que possa ocupar o lugar do inimigo.
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