De João Paulo a Francisco — Da norma ao afeto
Assistimos, nos últimos anos, à emergência de um discurso reacionário que denuncia uma suposta conspiração global contra a família. Segundo essa narrativa, as escolas teriam se transformado em trincheiras de doutrinação, os professores em agentes ideológicos e as crianças em alvos de uma estratégia de “erotização precoce”. No centro dessa cruzada está um inimigo difuso, mas poderoso: a chamada “ideologia de gênero”.
Esse sintagma não nasce no campo acadêmico, mas no interior da Igreja Católica, entre os anos 1990 e 2000, sob a influência decisiva do pontificado do Papa João Paulo II e da atuação da então Congregação para a Doutrina da Fé, liderada por aquele que mais tarde seria eleito o Papa Bento XVI. Trata-se menos de um conceito analítico e mais de uma construção retórica, forjada para reagir às transformações sociais impulsionadas pelo feminismo e pelos movimentos por direitos sexuais.
O pontificado de João Paulo II foi central nesse processo. Sua chamada “Teologia do Corpo” elevou a complementaridade entre homem e mulher à condição de fundamento da ordem social. A heterossexualidade deixou de ser apenas uma orientação entre outras para se tornar a base antropológica da humanidade. Nesse quadro, a homossexualidade aparece como desvio moral objetivo — ainda que se reconheça a dignidade da pessoa homossexual.........
