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O falso fantasma da crise fiscal

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05.09.2026

Há uma disputa econômica em curso dentro do campo que sustenta a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela não deve ser reduzida a uma divergência pessoal entre José Sérgio Gabrielli e Dario Durigan. Tampouco interessa transformá-la numa competição de currículos ou numa querela entre integrantes do mesmo governo. O que está em jogo é muito mais importante: qual diagnóstico da economia brasileira orientará um eventual quarto governo Lula e, consequentemente, que projeto de desenvolvimento será possível a partir de 2027.

A controvérsia tornou-se explícita quando Gabrielli, coordenador-geral do programa de governo de Lula, afirmou que falar numa crise fiscal brasileira é, em suas palavras, uma espécie de “fake news”. A declaração provocou a reação previsível dos porta-vozes do mercado financeiro. Mas merece ser discutida pelo seu conteúdo, e não pelo ruído que gerou.

Gabrielli chama a atenção para fatos difíceis de conciliar com a narrativa de uma economia à beira do precipício: desemprego baixo, inflação em trajetória de desaceleração, reservas internacionais robustas, contas externas administráveis e câmbio sem sinais de descontrole. A dívida pública cresce, mas não se encontra numa trajetória explosiva. Não há, portanto, fundamento para transformar a questão fiscal numa emergência nacional capaz de subordinar todas as demais escolhas de política econômica.

Dario Durigan, ministro da Fazenda e hoje principal interlocutor econômico da campanha junto ao mercado financeiro, parte de outra preocupação. Defende o fortalecimento do arcabouço fiscal, a contenção do crescimento das despesas obrigatórias e novos gatilhos capazes de limitar gastos. Chegou a discutir a possibilidade de reduzir de 2,5% para 1,5% o limite máximo de crescimento real das despesas previsto no atual arcabouço.

É aqui que o debate deixa de ser técnico e se torna essencialmente político.

Quando o diagnóstico determina o remédio

Se o Brasil vive uma crise fiscal, a prioridade passa naturalmente a ser o ajuste. Se, ao contrário, o problema central está no custo extraordinariamente elevado do dinheiro, na estrutura regressiva do sistema tributário, na compressão do investimento público e na necessidade de sustentar crescimento e transformação produtiva, a hierarquia das prioridades muda completamente.

Gabrielli está correto ao questionar a primeira narrativa.

Isso não significa afirmar que déficit e dívida não importam. Evidentemente importam. Nenhum economista sério defenderia que o Estado pode ignorar indefinidamente suas restrições fiscais. A questão é outra: de onde vem o desequilíbrio, quem paga por seu enfrentamento e quais despesas serão sacrificadas em nome dele?

Essa é a pergunta que frequentemente desaparece do debate brasileiro.

Fala-se obsessivamente em gasto público, mas muito menos no custo dos juros sobre a dívida. Discute-se o crescimento do Benefício de Prestação Continuada, do Bolsa Família, dos pisos constitucionais, da Previdência e do salário dos servidores como se aí estivesse o coração do problema fiscal. Ao mesmo tempo, naturaliza-se uma economia que durante anos conviveu com algumas das maiores taxas reais de juros do mundo.

O próprio Durigan reconheceu recentemente algo fundamental: o crescimento numérico do endividamento brasileiro tem forte relação com a taxa de juros. A diferença entre ele e Gabrielli, portanto, não está necessariamente na constatação do problema, mas na maneira de enfrentá-lo.

Durigan estabelece uma relação mais estreita entre credibilidade fiscal e redução dos juros. Gabrielli inverte parcialmente a causalidade: juros excessivamente elevados também deterioram as contas públicas e alimentam a própria dinâmica da dívida.

Essa diferença está longe de ser semântica.

Ela determina quem será chamado a pagar a conta.

O estranho poder da........

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