Do ECOSOC ao Conselhão: a importância de voltar a planejar o futuro
O Brasil acaba de ser eleito para integrar o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC). A nação conquistou 181 votos e garantiu um mandato de três anos que será exercido no período de 2027 a 2029.
A eleição do Brasil para o ECOSOC passou quase despercebida pelo debate público nacional. No entanto, trata-se de uma notícia que merece atenção. Mais do que um assento em um organismo internacional, ela oferece uma oportunidade para refletirmos sobre um tema cada vez mais ausente das discussões políticas brasileiras: a necessidade de espaços permanentes de diálogo, planejamento e construção de consensos para o desenvolvimento.
O ECOSOC é um dos órgãos principais da Organização das Nações Unidas. Criado em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, nasceu da percepção de que a paz não poderia ser construída apenas por meio da diplomacia ou da segurança militar. Seria necessário enfrentar também as causas econômicas e sociais dos conflitos: pobreza, desigualdade, desemprego, exclusão e falta de oportunidades.
Ao longo de décadas, o Conselho tornou-se um fórum de articulação entre governos, organismos internacionais, universidades, entidades empresariais, sindicatos e organizações da sociedade civil. Embora não possua o poder decisório do Conselho de Segurança, sua existência simboliza uma ideia fundamental: problemas complexos exigem diálogo institucionalizado e participação ampla.
Essa reflexão nos leva inevitavelmente ao caso brasileiro.
A experiência brasileira do Conselhão
Em 2003, logo no início de seu primeiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), conhecido popularmente como Conselhão. A iniciativa representava uma inovação importante na experiência democrática brasileira.
O país saía de décadas marcadas por hiperinflação, crises cambiais, instabilidade econômica e forte fragmentação social. Havia a percepção de que seria necessário construir uma agenda nacional capaz de reunir diferentes setores da sociedade em torno de objetivos comuns.
O Conselhão reuniu empresários, trabalhadores, intelectuais, movimentos sociais, representantes do setor produtivo, pesquisadores e lideranças da sociedade civil. Não se tratava de eliminar divergências, mas de criar um espaço onde elas pudessem ser debatidas de forma institucional e produtiva.
Nos primeiros anos, o Conselho desempenhou papel relevante. Diversas propostas discutidas naquele ambiente contribuíram para formulações ligadas à política industrial, à inclusão social, à ampliação do crédito, ao fortalecimento do mercado interno e à construção de estratégias de desenvolvimento de longo prazo.
O próprio ambiente econômico da época favorecia esse tipo de iniciativa. O Brasil crescia, reduzia desigualdades e ampliava sua presença internacional. Havia confiança na capacidade do Estado de coordenar políticas públicas e promover transformações estruturais.
Com o passar dos anos, entretanto, o Conselho perdeu protagonismo.
Durante os governos Dilma Rousseff, embora mantido formalmente, o CDES deixou de ocupar posição central na formulação das políticas públicas. A crise econômica, a crescente polarização política e as disputas institucionais reduziram sua influência.
A ruptura mais profunda ocorreria, porém, nos anos seguintes. Em 2019, já nos primeiros meses do governo Jair Bolsonaro, o........
