Transformar para redistribuir o amanhã
Do a terra é redonda
1.
Compreender o capitalismo contemporâneo exige o repensar da ideia de que ele se organiza exclusivamente a partir de Estados nacionais e de políticas internas. A economia atual opera por meio de cadeias globais de valor, plataformas digitais e finanças altamente móveis, capazes de atravessar fronteiras com rapidez e de reorganizar o poder econômico e informacional.
Sem reconhecer essa mudança estrutural, estratégias políticas, formas de regulação e projetos de justiça social tendem a mirar um alvo muito importante e comum no passado. Nessa defasagem, pode prevalecer a erosão lenta que enfraquece expectativas coletivas, compromete a credibilidade da promessa de progresso e do futuro como horizonte compartilhado.
O tempo social, então, parece não avançar nem se encerrar; em vez disso, arrasta-se. Não se trata de uma sequência de grandes rupturas claramente percebidas, como guerras e revoluções até agora, mas de um interregno prolongado no qual o capitalismo não consegue se renovar o suficiente para produzir um novo pacto social e tampouco colapsa com intensidade suficiente para abrir, por si, um horizonte alternativo.
O sistema sobrevive por remendos, adiamentos e políticas de exceção, com ajustes pontuais, reformas fragmentadas, programas emergenciais, renegociações recorrentes. O resultado é uma sensação estranha de estagnação histórica justamente quando a tecnologia acelera tudo, como se a passagem para a Era Digital não se traduzisse em emancipação coletiva, mas em um presente hiperconectado e, ao mesmo tempo, socialmente bloqueado.
No caso brasileiro, essa transição iniciada com a adoção do receituário neoliberal, em 1990, assume um traço particularmente duro. O Estado nacional tem perdido margem de atuação, passando a operar crescentemente subordinado a duas forças complementares.
De um lado, a financeirização ampliou o poder disciplinador das finanças sobre a política econômica orientada para a produção. Por meio da dinâmica da dívida, do custo do capital, de metas fiscais e da vigilância permanente de expectativas de mercado, o amanhã deixa de ser um horizonte de emancipação para se tornar um futuro comprometido por metas de curto prazo, parcelas a pagar e gestões das urgências permanentes.
De outro, a digitalização plataformizada desloca atividades econômicas e informacionais para infraestruturas privadas transnacionais, capazes de coordenar mercados, trabalho e consumo sob conectividade constante e gestão algorítmica de dados convertidos em mercadorias. Esse duplo........
