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O Estado do século XXI

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19.07.2026

Poucas vezes na história a humanidade assistiu a uma transformação tão profunda quanto a que vivemos atualmente. Não se trata apenas da substituição de máquinas por computadores, nem da troca de fábricas por plataformas digitais. O que está em curso é uma mudança na própria natureza do poder. Se a Revolução industrial reorganizou a economia em torno da máquina, a transformação digital reorganiza a sociedade em torno dos dados, dos algoritmos e da inteligência artificial.

O século XX foi moldado pela indústria. Este início do século XXI está sendo moldado pela capacidade de produzir, integrar e transformar dados em conhecimento estratégico. O ativo decisivo das nações deixa de ser apenas o capital físico e passa a incluir o patrimônio informacional. A riqueza já não depende exclusivamente do controle de fábricas, energia, infraestrutura e força de trabalho, mas também da capacidade de organizar redes digitais, desenvolver inteligência artificial, comandar fluxos de informação e antecipar comportamentos.

É essa capacidade de antecipação que define o novo capitalismo. Antes, a fábrica disciplinava corpos, agora, os algoritmos influenciam escolhas, desejos e expectativas. Se o relógio regulava o tempo do trabalhador industrial, as plataformas digitais regulam nossa atenção. Se a publicidade vendia mercadorias, a inteligência artificial comercializa previsões sobre nossos comportamentos. O capitalismo contemporâneo não deseja apenas vender produtos: deseja prever, induzir e capturar condutas.

As grandes plataformas tecnológicas sabem onde estamos, o que consumimos, quais são nossos hábitos, vínculos sociais, preferências culturais, inclinações políticas e até aquilo que provavelmente faremos amanhã. Elas não administram apenas informações, pois administram probabilidades. E quem controla probabilidades passa a influenciar decisões econômicas, culturais e políticas. Ou seja, quem controla os dados controla parte crescente da própria capacidade social de decidir.

Essa transformação representa uma ruptura histórica comparável ao surgimento do Estado moderno ou à Revolução industrial. No século XIX, construir ferrovias significava integrar o território e consolidar a soberania nacional. No século XX, estruturar sistemas estatísticos nacionais permitiu conhecer a população e o território, organizar políticas públicas com base na realidade observada e planejar os passos do desenvolvimento. Neste primeiro terço do século XXI, a soberania passa também pelo domínio das infraestruturas digitais, da inteligência artificial e dos sistemas públicos de informação.

Um país que não controla seus próprios dados dificilmente controlará o seu próprio destino. A dependência informacional tende a se tornar a forma mais sofisticada de dependência nacional. No passado, a subordinação se expressava pelo controle externo da terra, dos portos, das minas, das ferrovias, da indústria e do financiamento. Agora, ela se amplia pelo controle externo das nuvens digitais, dos algoritmos, dos modelos de inteligência artificial, dos sistemas de pagamento, das plataformas de comunicação, dos mapas, das identidades digitais e dos fluxos de dados.

Mas essa mudança não transforma apenas a economia. Ela exige uma profunda reinvenção do Estado construído durante a era........

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