A nova economia do sofrimento
Entre o controle algorítmico e a hipermedicalização, as dores inerentes à exploração contemporânea deixam de ser motor para a transformação política e passam a nutrir a bilionária indústria farmacêutica
A modernidade nasceu sob a promessa da emancipação humana. Ao deslocar o centro da explicação do mundo da vontade divina para a razão, o Iluminismo europeu rompeu com a ordem transcendental que sustentava as sociedades agrárias. Durante séculos, a Igreja havia organizado não apenas a fé, mas também os sentidos atribuídos à vida, à morte, à culpa, à pobreza, à obediência e ao sofrimento. Nas sociedades agrárias, marcadas pela tradição, hierarquia e religiosidade, a dor humana podia ser interpretada como provação, destino, pecado, penitência ou promessa de salvação.
A razão moderna, ao superar progressivamente o poder transcendente da Igreja, abriu caminho para a ciência, para o Estado secular, para o indivíduo autônomo e para a ideia de progresso. Mas essa libertação teve também seu reverso. Ao desencantar o mundo, a modernidade retirou do sofrimento parte de sua antiga moldura simbólica. A dor deixou de pertencer apenas ao campo da alma, do mistério e da salvação para ser incorporada ao campo da norma, da ciência, da produtividade e da adaptação social.
No século XX, Sigmund Freud (1856-1939) percebeu com lucidez que a civilização moderna não havia eliminado o sofrimento humano. Ao contrário, havia deslocado suas formas. Nas sociedades urbanas e industriais, o mal-estar passou a expressar as........
