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Hegemonia mafiosa

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27.03.2026

Em bom artigo publicado na Foreign Affairs, Stephen M. Walt, professor titular da Cátedra Robert e Renee Belfer de Relações Internacionais na Escola Kennedy de Harvard, afirmou que Trump já foi chamado de realista, nacionalista, mercantilista antiquado, imperialista e isolacionista. Cada um desses termos captura alguns aspectos de sua abordagem, mas a grande estratégia de seu segundo mandato presidencial talvez seja melhor descrita como “hegemonia predatória”.

Correto. Considero, entretanto, que o adjetivo “predatória” seja talvez um tanto eufemístico. Hegemonia mafiosa me parece retratar melhor a natureza brutal do governo Trump.

O objetivo central dessa hegemonia predatória é usar a posição privilegiada de Washington para extrair concessões, tributos e demonstrações de deferência tanto de aliados quanto de adversários, buscando ganhos de curto prazo, sob o prisma de uma visão de mundo que considera as relações entre os países como um jogo de soma zero.

De fato, essa é a visão de mundo do governo Trump, sobre a qual já havia escrito anteriormente.

Segundo Trump e seu séquito de oligofrênicos, para que os EUA obtenham algum ganho ou vantagem, é necessário que os outros países, inclusive aliados, sofram perdas.

A ideia de que as relações possam ser mutuamente benéficas, com os países lucrando com uma cooperação pacífica, não passa pelo cérebro torpe e primitivo de Trump, que se vê como herdeiro político de McKinley, o “Tariff Man”, e de Theodore Roosevelt, o homem do Big Stick.

Pode-se argumentar, é claro, que os EUA sempre foram implacáveis, especialmente quando se viam desafiados.

Mas o paroxismo da hegemonia predatória ou mafiosa é algo novo.

Na época da antiga Guerra Fria, com sua clara bipolaridade, os EUA, de acordo com Waltz, tinham um comportamento mais benevolente e racional, notadamente com aliados.

Com efeito, no mundo bipolar da Guerra Fria, os Estados Unidos atuavam como uma potência hegemônica benevolente em relação a seus aliados próximos na Europa e na Ásia, pois os líderes americanos acreditavam que o bem-estar desses aliados era essencial para conter a União Soviética.

Washington ajudou seus aliados a se recuperarem economicamente após a Segunda Guerra Mundial e criou e respeitou regras destinadas a promover a prosperidade mútua no mundo capitalista.

Isso não impediu, é claro, que Nixon implodisse o padrão-ouro, em 1971, para impor, em definitivo, a implacável hegemonia financeira do dólar. Também não impediu as inúmeras intervenções políticas e militares, especialmente na América Latina, para derrubar governos que não se alinhavam a seus interesses.

Não obstante, os “aliados” raramente eram maltratados ou enfraquecidos.

Já durante a era unipolar, que se seguiu à queda da União Soviética, os EUA, segundo Waltz, sucumbiram à arrogância e se tornaram uma potência hegemônica bastante negligente e obstinada. Sem enfrentar oponentes poderosos e convencidos de que a maioria dos Estados estava ansiosa para aceitar a liderança americana e abraçar seus valores liberais, as autoridades americanas deram pouca atenção às preocupações de outros Estados; embarcaram em cruzadas dispendiosas e equivocadas no Afeganistão, Iraque e diversos outros países; adotaram políticas de........

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