Memórias de uma Antártica cada dia mais quente
A base argentina Esperanza, na Península Antártica, registrou uma temperatura de 15,4 °C no início deste mês de junho, um novo recorde histórico para o mês. Como mostram fotografias, calor suficientemente para permitir aos moradores da base fazer longas caminhadas vestidos apenas com bermudas e camisetas. O valor supera o recorde anterior de 13,3 °C, registrado em 1998, e está muito distante da média de junho, de 6,2 °C.
Ao longo da costa oeste do continente mais austral do mundo, falta uma superfície de gelo quase tão grande quanto a França: o déficit é estimado em cerca de 650 mil quilômetros quadrados em relação à média das últimas décadas. O fenômeno diz respeito ao gelo marinho, que é diferente do gelo continental. Quando a banquisa derrete, o gelo marinho não contribui diretamente para a elevação do nível dos oceanos. Sua presença, no entanto, tem um papel importante: protege as plataformas de gelo, que por sua vez retêm as grandes geleiras da Antártida. Na Península Antártica, o inverno austral tem dificuldade em consolidar o gelo marinho. Nessa região, bem como no outro lado do mundo, no Ártico, as provas da realidade do aquecimento global são mais do que evidentes.
A notícia traz-me à mente lembranças da minha visita ao continente gelado, e à base brasileira Comandante Ferraz, situada na mesma Península, entre os meses de novembro e dezembro de 2009. Era o final da primavera no hemisfério sul, e os sinais da mudança climática começavam a se manifestar na região. Foi uma viagem extraordinária, a bordo do navio norueguês NordNorge.
Na Baía do Almirantado, esgueirando-se entre a miríade de blocos de gelo flutuantes, nosso bote de borracha se aproximou da praia de neve e cascalho onde, mais à........
