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Do Nepal ao Brasil: como uma revolta de jovens no Nepal e uma disputa entre Estados Unidos e China podem se tornar o veículo de um novo golpe brasileiro

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24.09.2026

Em setembro de 2025, o Nepal entrou em uma espiral de violência que, em poucos dias, derrubou um governo, matou dezenas de pessoas e transformou uma disputa aparentemente administrativa sobre redes sociais em uma crise política de grandes proporções. O episódio começou com uma decisão do governo de bloquear 26 plataformas digitais que não haviam cumprido exigências de registro, mas rapidamente deixou de ser uma controvérsia sobre regulação da internet. Jovens foram às ruas, a polícia abriu fogo, a indignação contra a censura digital se misturou a acusações de corrupção, nepotismo, desemprego e desigualdade, e a crise culminou na renúncia do primeiro-ministro K. P. Sharma Oli. Em 8 de setembro, segundo levantamento divulgado pelo Institute of South Asian Studies, 19 pessoas haviam sido mortas por disparos policiais e centenas estavam feridas; nos dias seguintes, o número de mortos continuaria a subir à medida que a dimensão da violência fosse sendo apurada.

O que torna o episódio particularmente relevante para além das fronteiras nepalesas não é apenas a queda de um governo. É a velocidade com que uma crise doméstica se transformou em um repertório político transnacional. Poucos dias depois das primeiras mortes, imagens, vídeos e comparações com o Nepal começaram a circular em grupos públicos de WhatsApp no Brasil. Segundo levantamento da plataforma de monitoramento Palver, publicado pela BBC News Brasil, as referências ao Nepal nesses grupos passaram de sete menções a cada 100 mil mensagens em 8 de setembro para 314 no dia seguinte e 344 em 10 de setembro. A comparação começou a aparecer precisamente quando o Supremo Tribunal Federal julgava os réus da trama golpista brasileira e quando o ministro Luiz Fux apresentava seu voto (um voto que faz qualquer democrata embrulhar o estômago). Mas o que se deve sublinhar é que a palavra “Nepal” deixou de funcionar apenas como referência geográfica e passou a ser utilizada por segmentos políticos brasileiros como metáfora para uma possível mobilização de rua contra instituições brasileiras. E quem sabe para um novo golpe bolsonarista.

Esse deslocamento semântico é o ponto de partida para uma questão maior: como um acontecimento político localizado em um pequeno país do Himalaia se transforma, em questão de horas, em uma imagem mobilizadora em outro continente? E, sobretudo, o que essa circulação revela sobre o novo ambiente de conflito político, no qual acontecimentos reais, interpretações estratégicas, operações de influência, desinformação, mobilização espontânea e apropriação partidária podem coexistir na mesma corrente informacional sem que seja possível atribuir toda a cadeia a um único ator?

A resposta exige cautela porque existem três fenômenos diferentes que frequentemente são confundidos. O primeiro é a crise interna do Nepal, que possui causas domésticas documentadas. O segundo é a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China pelo espaço político, econômico e infraestrutural do país, também amplamente documentada. O terceiro é a circulação internacional de narrativas sobre a revolta nepalesa, fenômeno que inclui apropriações políticas brasileiras e, posteriormente, referências à chamada “nepalização” do Brasil. Há evidências suficientes para afirmar que os três fenômenos existem e se cruzam.

O Nepal é um país que conheço bem; estive lá pela última vez por mais de um mês, entre setembro e outubro de 2011. No aeroporto você desembarca e se confronta com rifles e soldados. O país vivia então uma das várias instabilidades políticas desde a independência.

O Nepal que encontrei em 2011 era um país ainda profundamente marcado pela guerra civil maoísta (1996–2006), pela abolição da monarquia em 2008 e pela dificuldade de transformar o acordo de paz em instituições estáveis. Em setembro–outubro de 2011, o país vivia justamente uma prolongada transição republicana, com governos sucessivos e uma Assembleia Constituinte incapaz de concluir a nova Constituição. O primeiro-ministro Jhala Nath Khanal havia deixado o cargo em agosto daquele ano e Baburam Bhattarai assumira o governo, mas a Assembleia acabou dissolvida em 2012 sem produzir o texto constitucional, exigindo novas eleições em 2013.

Depois de novas eleições e de anos de negociações, o Nepal finalmente promulgou sua Constituição federal republicana em setembro de 2015, poucos meses depois do devastador terremoto de abril daquele ano. A nova ordem, entretanto, não eliminou a instabilidade, e a política passou a ser marcada pela sucessão de coalizões e primeiros-ministros, com os mesmos grandes partidos e lideranças alternando-se no poder. Entre 2015 e 2025, o país continuou a enfrentar dificuldades econômicas, disputas sobre federalismo, corrupção, nepotismo e baixa confiança nas instituições, enquanto sua posição entre Índia e China o colocava no centro de importantes disputas geopolíticas.

Em 2025, uma nova geração voltou às ruas: o bloqueio de 26 plataformas digitais desencadeou protestos que rapidamente incorporaram demandas muito mais profundas contra corrupção, desigualdade, nepotismo e a classe política; a repressão policial matou dezenas de manifestantes, a crise derrubou o governo de K. P. Sharma Oli e levou à formação de um governo interino.

Para compreender a crise de setembro de 2025, é necessário abandonar a ideia de que tudo começou quando o governo bloqueou as redes sociais. A proibição foi o gatilho imediato, mas não explica, sozinha, a intensidade da reação. Um estudo publicado pelo Institute of South Asian Studies da National University of Singapore poucos dias depois da crise descreveu uma sociedade já submetida a fortes tensões políticas e econômicas, na qual a insatisfação acumulada com corrupção, instabilidade, nepotismo, falta de oportunidades e ausência de confiança nas instituições encontrou nas redes sociais um canal particularmente eficiente de mobilização. O bloqueio de plataformas digitais foi percebido por uma parcela significativa dos jovens como uma tentativa de silenciamento, justamente porque essas plataformas estavam integradas à vida econômica, social e profissional de grande parte da população.

A dimensão geracional foi importante, mas não deve ser romantizada. A mobilização foi associada à chamada Gen Z, porém as causas ultrapassavam a juventude. O estudo de Puspa Sharma mostra que hashtags como #nepokids e #nepobabies já vinham sendo utilizadas antes dos protestos para criticar filhos de políticos e pessoas associadas às elites por ostentarem viagens, bens de luxo e estilos de vida considerados incompatíveis com as condições econômicas da população. A revolta, portanto, não nasceu simplesmente de uma defesa abstrata da liberdade digital: ela estava associada a uma percepção de desigualdade política, econômica e social que encontrava nas redes um vocabulário cotidiano de indignação.

A pesquisa publicada posteriormente por Bishnu Pariyar, da University of Leicester, oferece uma interpretação ainda mais sofisticada. Em artigo publicado no Third World Quarterly em abril de 2026, após entrevistas com 35 participantes — entre ativistas jovens, jornalistas, advogados e funcionários públicos —, Pariyar descreve a crise como uma sucessão de falhas que se reforçaram mutuamente. O bloqueio das plataformas teria funcionado como gatilho; as frustrações geracionais forneceram o combustível social; o uso de força policial acelerou a radicalização; a comunicação governamental inconsistente aprofundou a perda de legitimidade; e a fragilidade institucional transformou a escalada em ruptura política. A importância dessa interpretação está justamente em rejeitar uma explicação linear: a crise não teria sido produzida por um único evento, mas pela combinação de diferentes falhas institucionais que se potencializaram.

A diferença é fundamental. Em uma leitura conspiratória, o bloqueio das redes seria apenas a primeira etapa de uma operação externa. Na literatura acadêmica disponível, porém, o quadro é mais complexo: o governo tomou uma decisão administrativa controversa em uma sociedade já marcada por baixa confiança institucional, desigualdade, ressentimento geracional e forte dependência das plataformas digitais. A repressão policial transformou uma disputa regulatória em uma crise de legitimidade. O que aconteceu depois não pode ser explicado adequadamente sem considerar essa estrutura doméstica.

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