O manifesto Palantir e a soberania digital alheia
Imagine que uma empresa brasileira de análise de dados e inteligência artificial — fundada com capital inicial da ABIN, tendo o Ministério da Defesa como principal cliente e responsável por contratos com agências de segurança em outros países — publicasse, em uma rede social, um manifesto de 22 pontos declarando que a elite tecnológica do Brasil tem "obrigação afirmativa de participar da defesa da nação", que debates éticos sobre tecnologia militar são "teatrais" e uma perda de tempo, que o poder do Brasil "tornou possível uma paz extraordinariamente longa", que a época do soft power acabou e que culturas que não acompanharam o desenvolvimento brasileiro "permanecem disfuncionais e regressivas." Imagine, ainda, que essa empresa tivesse contratos ativos com agências públicas de saúde e educação dos Estados Unidos — contratos firmados sem licitação, através de uma triangulação com uma estatal local.
Qual seria uma resposta possível de Washington? Na conjuntura atual, seria imediata, enérgica e previsível. Convocação do embaixador, acionamento do Comitê de Investimentos Estrangeiros, investigações no Congresso e quase certamente sanções. Nenhum governo empenhado em garantir a soberania nacional toleraria que uma empresa estrangeira, com laços com sua comunidade de inteligência, operasse dentro de estruturas públicas sensíveis enquanto declarava lealdade explícita a outra nação.
Pois é exatamente isso que a empresa estadunidense Palantir acaba de fazer. No último fim de semana, a conta oficial da Palantir no X publicou um texto de 22 pontos, apresentado como síntese do livro “The Technological Republic”, que teve o CEO da empresa, Alex Karp, como um dos autores. A abertura — "porque nos perguntam muito" — simulava uma resposta despretensiosa. O conteúdo é um programa geopolítico explícito de uma empresa que se fundiu à máquina do maior complexo industrial militar da terra.
Em um estilo caricato, o primeiro ponto afirma que o Vale do Silício tem "obrigação afirmativa de participar da defesa da nação" — sendo a nação, sem qualquer ambiguidade, os Estados Unidos. O quinto declara que a questão não é se armas de IA serão construídas, "mas quem as construirá e com qual propósito", descartando debates éticos como "teatrais". O décimo segundo anuncia que "a era atômica está terminando" e que uma nova era de dissuasão construída sobre IA está prestes a começar. O décimo quinto defende desfazer a contenção imposta ao Japão e à Alemanha após a Segunda Guerra. Os pontos finais denunciam o pluralismo como "vazio e oco" e afirmam que "algumas culturas produziram avanços vitais enquanto outras permanecem disfuncionais e regressivas."
Como bem sintetizou Eliot Higgins, fundador do Bellingcat, esses 22 pontos não são filosofia flutuando no espaço — são a ideologia pública de uma empresa cuja receita depende da política que está advogando. Não é a declaração de um fornecedor neutro de tecnologia. É a confissão de........
