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Domenico Losurdo e os crimes atuais do imperialismo

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02.03.2026

Esta é uma entrevista concedida em 2017 pelo saudoso intelectual italiano Domenico Losurdo, quando do lançamento da edição brasileira de seu livro A Esquerda Ausente.

Ao retomá-la hoje, o que mais nos chama a atenção é o fato de que, há oito anos, Losurdo pintava um quadro que serve, quase que sem requerer nenhuma alteração, para o panorama vigente neste exato momento.

Como evidência de sua atualidade, temos a criminosa agressão que acaba de ser perpetrada pelo tenebroso consórcio da morte EUA-Israel contra o Irã, no qual, além do vil assassinato de centenas de crianças escolares indefesas, também foi exterminado o dirigente máximo da nação persa. E isto a menos de dois meses do covarde ataque à Venezuela, que acarretou na morte de mais de cem pessoas e no sequestro de seu legítimo presidente, Nicolás Maduro.

Todo este nefasto desenrolar já poderia ser delineado a partir das reflexões expressadas por Losurdo na citada entrevista. Porém, precisamos ter em mente que não se trata de nenhuma habilidade para a adivinhação futurística, senão que de um cuidadoso e criterioso apego à análise com base no materialismo histórico. Por isso, considero de muita valia retomar a entrevista, relê-la com atenção e fazer as devidas meditações sobre seu conteúdo.

Se levarmos em conta que, agora, com os avanços técnicos e a intensificação no uso da inteligência artificial para gerar factoides diversionistas, os alertas por ele levantados merecem uma atenção ainda maior por parte de todos os que estamos comprometidos com a eliminação da monstruosidade da dominação imperialista. Neste sentido, seria ainda mais valioso também fazer a leitura do livro a respeito da qual a conversa foi levada adiante, ou seja, A Esquerda Ausente, publicado pela Editora Anita Garibaldi.

Entrevista com Domenico Losurdo

A ESQUERDA AUSENTE E A GUERRA PRESENTE

Em março de 2017, Domenico Losurdo esteve em São Paulo para participar do seminário “100 anos da Revolução Russa e 95 do PCdoB”. Por ocasião desta visita ao Brasil, Losurdo também lançou a edição brasileira de A Esquerda Ausente e concedeu entrevista à revista Princípios. Publicamos a íntegra da entrevista nesta segunda edição de A Esquerda Ausente – em substituição à apresentação do autor à primeira edição. A entrevista traz análises que ajudam a contextualizar, com elementos mais atuais, as reflexões apresentadas por Losurdo neste livro. Participaram da entrevista Walter Sorrentino, vice-presidente do PCdoB; Fábio Palácio, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e atual editor da revista Princípios; Cristiano Capovilla, professor de Filosofia da UFMA e Osvaldo Bertolino, jornalista e escritor.

Confira a entrevista completa:

O senhor faz uma distinção sobre o comportamento da esquerda entre a resistência ao neoliberalismo e ao neocolonialismo. Como é isso?

Domenico Losurdo: Há uma reação ao neoliberalismo. Pode ser considerada insuficiente, mas há. Há uma reação contra o desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social. Enquanto, ao contrário, no que diz respeito à resposta ao neocolonialismo, às guerras neocoloniais, essa resposta é muito mais fraca e, na verdade, muito artificial. Na Itália tivemos um grande escândalo, no sentido político do termo, quando houve a guerra contra a Líbia em 2011, precisamente cem anos depois da guerra que a Itália liberal fez contra a Líbia em 1911. E foi uma horrível guerra colonial.

Comunistas dignos desse nome, e outros democratas dignos desse nome, relembrando essa guerra infame deveriam resistir a esta nova guerra. No entanto, isso não aconteceu. Em 2011 o presidente era Silvio Berlusconi, que hesitava em fazer a guerra. Nessa circunstância, interveio Susanna Camusso, então secretária-geral da Confederazione Generale Italiana del Lavoro (Confederação Geral Italiana do Trabalho), a entidade mais forte dos trabalhadores, com uma tradição gloriosa, a favor da guerra. É uma entidade que por um longo tempo teve forte influência do Partido Comunista Italiano. Susanna Camusso criticou Berlusconi por hesitar em fazer a guerra. E Berlusconi participou dessa guerra infame. Esta é a “esquerda ausente” de que falo.

A esquerda condena o neoliberalismo, mas podemos dizer que às vezes de maneira fraca, insuficiente, e às vezes não chega a se envolver. Isto é: há uma certa resistência em relação ao neoliberalismo, contra a política de desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social, mas a esquerda não compreendeu o neocolonialismo. Não apenas não o condena, mas muitas vezes o apoia de modo explícito. Mesmo hoje uma certa esquerda apoia a guerra contra a Síria.

Não, a esquerda hoje continua surda diante da questão colonial. Se alguém toma posição a favor da Síria é acusado de ser amigo de um ditador cruel, sanguinário. Não se dá conta de que aquela guerra não é civil. É uma guerra neocolonial. Muito antes de ter eclodido os tumultos na Síria, eu li textos dos neoconservadores estadunidenses dizendo que o presidente Bashar al-Assad deveria ser derrubado porque era inimigo de Israel e do Ocidente.

Uma guerra neocolonial que primeiro foi conduzida como manobra de desestabilização e agora com intervenções militares. A Rússia é o único país que interveio de acordo com o governo sírio e sob a sua supervisão, enquanto os Estados Unidos, a Turquia e a Arábia Saudita intervêm a seu modo, pisoteando descaradamente o princípio da soberania nacional.

Quando se fala em esquerda, não existe nuances nesse conceito?

Domenico Losurdo: Há nuances, claro. Para compreender como é grave a situação, se pegarmos uma força como a Refundação Comunista, na qual existem verdadeiros comunistas, vemos que é muito hesitante na defesa da Síria contra essa guerra infame neocolonial.

Portanto, quando me refiro à esquerda em geral nós devemos manter separadas as forças autenticamente comunistas que tenham presentes os ensinamentos leninistas. Mas estas são minoria. Ao passo que existem forças que participam da luta contra o neoliberalismo — e por isso, pelo menos desse ponto de vista, podem ser consideradas de esquerda —, mas não participam de forma alguma da luta contra o neocolonialismo — e, deste ponto de vista, trata-se de uma falsa esquerda.

No caso da China, trata-se de uma guerra mais de sentido comercial?

Domenico Losurdo: Logo depois do triunfo obtido na Guerra Fria, o Ocidente julgava poder impor uma globalização, com os Estados Unidos exercendo hegemonia absoluta. O historiador britânico Niall Ferguson diz que quando a........

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