Polarização política: uma categoria midiática explicativa preguiçosa?
Com a abertura do ano eleitoral, reaparecem armadilhas conhecidas. Entre elas, a narrativa da polarização como ameaça à democracia e ao desenvolvimento do país, como obstáculo à renovação de lideranças e à emergência de ideias novas. Volta também a sugestão de que estaríamos enredados em alternativas aquém do eleitor, como se as opções progressistas em disputa fossem antigas e ultrapassadas, apegadas a concepções de igualdade, liberdade e justiça consideradas inadequadas ao individualismo contemporâneo. Planta-se, mais uma vez, a promessa de uma saída fora do conflito, uma espécie de solução mágica que reaparece como isca para reencenar o apelo a uma alternativa redentora capaz de substituir o desperdício do voto no “menos pior”.
No seu sentido político-social mais elementar, polarização designa apenas a divisão de posições em campos opostos, frequentemente antagônicos. Nada há aí, em si, que implique problema, ameaça ou juízo moral. Tenho achado a expressão midiática “polarização política” um nome preguiçoso dado ao tradicional desconforto à brasileira com o dissenso, que é parte indissociável do mundo real.
A narrativa da polarização transforma o conflito de posições e suas manifestações em algo necessariamente ruim e, com isso, já carregado de um sentenciamento: o de que o problema está na existência de polos divergentes e na intensidade do embate que animam a vida política. Como se a virtude da política estivesse num centro imaginário, sustentado por um acordo invisível, assentado numa ordem harmônica — também inexistente —, tomado como lugar de equilíbrio e medida da validade e legitimação das posições opostas.
Mas há que ficar atento ao fato de........
