Na esculachocracia, vale tudo em qualquer lugar: pancada policial em escola é política pública
No dia 25 de março de 2026, um policial militar foi filmado agredindo estudantes dentro da Escola Estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado. As imagens mostram socos e tapas em alunos durante uma mobilização estudantil contra um professor acusado de assédio, após a direção acionar a polícia. O caso foi registrado na 9ª Delegacia de Polícia do Catete, o agente foi afastado e a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro abriu procedimento para apuração.
A conduta do policial foi deliberadamente uso excessivo da força. Seu comportamento desinibido diante das câmeras abertas dos celulares mostra apropriação pessoal e abusiva do poder de polícia, que é seu, meu, nosso, da sociedade policiada. E que concedemos ao Estado para administrá-lo em nosso nome, segundo as nossas regras constitucionais do pacto sociopolítico brasileiro. E não segundo a cabeça conveniente do agente da lei.
O que fica explícito ali naquela cena patética, mas tão comum? A crença vaidosa de que não há problema algum em distribuir chutes e pescotapas, se assim for da vontade arbitrária do poderoso com matrícula da vez. Por que não empregar os níveis mais altos de uso da força diante dos mais baixos níveis de resistência desarmada? Por que não usar a discricionariedade policial para projetos particulares de poder? Não é mesmo? Os fins da politicagem e ideologização policiais têm justificado os meios intencionalmente abusivos. Faz ganhar eleição e manter os eleitores fidelizados, porque rendidos por seu medo aparelhado.
Tudo funcionou muito bem na escola para produzir a cena primorosa de descalabro repetido e banalizado. Não foi um desvio na abordagem. Foi um modo de funcionamento. Silenciamento e impunidade prévia diante de grave denúncia de assédio contra um professor. No lugar de alternativas efetivas de resolução de conflitos em ambiente escolar, observou-se a via fácil da solução coercitiva, que dispensa negociação e produção de consenso. Mais fácil em termos de responsabilização. Mais rápido em termos de solução. Passar o bastão de protagonista para a PM. A polícia estaria ali para garantir a administração pacífica do conflito a ser feita pela gestão de ensino, incluindo produzir imobilização defensiva sem dolo frente a risco grave de vitimização. A escola, aqui, não é uma exceção ao controle pelo esculacho. Ela ingressou como mais um lugar de prática de exceções no uso da violência institucional.
O poder de polícia, na democracia, não é poder do agente nem poder da corporação policial. Polícia e policiais cumprem um mandato que nos pertence e por nós é concedido e sob nosso consentimento. É isso que distingue a polícia, uma burocracia armada profissional, de um bando armado. É o consentimento social das coletividades que autoriza serem policiadas por alguns de seus membros – a polícia. E essa autorização coletiva é revalidada pelo marco legal que separa, nas ruas, a polícia da bandidagem: o uso da força para produzir obediência às regras pactuadas e o uso da violência que produz sujeição e opressão. Quando essa distinção se rompe, não há mais excessos e exceções. Tem-se um modo ilegal, mas legitimado, de policiar.
É preciso dizer com todas as letras. A única coisa que pertence ao agente policial e que ele pode fazer uso segundo sua cabeça e sentença é o seu próprio corpo, quando despossuído dos paramentos estatais. Todo........
