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Venezuela e Gaza: o retorno da era dos impérios

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08.01.2026

 O sequestro, pelos EUA, do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, em 3 de janeiro de 2016, após ataques noturnos contra Caracas e o corredor costeiro, não foi apenas uma escalada em um conflito de longa data. Foi uma demonstração de arrogância imposta pela força, que afirma que o conceito de soberania no Hemisfério Ocidental é uma ilusão, sujeita à intervenção dos EUA, e que o direito internacional não vincula impérios ou superpotências, sendo apenas uma ferramenta a ser usada contra adversários e Estados fracos.

Os EUA descreveram a operação como “aplicação da lei”, mas, na realidade, tratou-se de uma incursão militar, fato confirmado pela própria Casa Branca. Donald Trump classificou a operação como “muito bem-sucedida” e declarou que os EUA “assumiriam a administração do país” até que uma “transição segura, sólida e racional” pudesse ser alcançada. Ele também alertou os líderes venezuelanos de que “o que aconteceu com Maduro poderia acontecer com eles”, acrescentando que não tinha receio de enviar “tropas em solo”.

Talvez o indício mais revelador do verdadeiro objetivo dessa operação seja a ligação direta que Trump fez com o petróleo. Ele prometeu que empresas estadunidenses entrariam na Venezuela “para reparar a infraestrutura gravemente danificada” e “começar a lucrar”, alegando que o país havia “roubado” petróleo “produzido” pelos Estados Unidos com “talento, mão de obra e habilidade estadunidenses”, descrevendo o episódio como “um dos maiores roubos de suas propriedades” na história dos EUA.

Essa linguagem, extraída diretamente da própria caracterização da operação feita por Trump, pertence ao léxico arrogante da invasão e da dominação, e não à linguagem da legitimidade e da justiça. O que Washington demonstrou não é apenas que as sanções causam danos, mas que sanções, bloqueios, apreensões e narrativas de “aplicação da lei” estão sendo utilizados como um prelúdio grosseiro para a mudança de regime.

O Império e a Doutrina Monroe como sistema operacional de controle: para entender as ações de Trump na Venezuela, é necessário situá-las em um contexto mais amplo, relacionado à compreensão da mentalidade imperial. A Doutrina Monroe foi proclamada em 1823 pelo quinto presidente dos EUA, James Monroe, com o objetivo de estabelecer o Hemisfério Ocidental como esfera de influência estadunidense.

Inicialmente, foi apresentada como um aviso às potências europeias para que encerrassem sua presença militar na região, consolidando, assim, a sua hegemonia. Com o tempo, evoluiu para uma doutrina estratégica hemisférica, na qual os Estados Unidos decidem quais governos consideram “legítimos”, quais rotulam como “perigosos” e sujeitos a sanções ou derrubada, e quais recursos são considerados “estratégicos” e, portanto, passíveis de serem tomados por quaisquer meios. A lista de países visados é familiar porque o padrão é consistente: Irã (1953), Guatemala (1954), Brasil (1964), Chile (1973), Granada (1983), Nicarágua durante a era Contra (na década de 1980), Haiti (1994) e até mesmo a própria Venezuela, na tentativa fracassada de golpe de Estado contra o então presidente Hugo Chávez em 2002, não são eventos isolados. Todos seguem a mesma lógica: quando um governo ou país obstrui a hegemonia estadunidense ou suas prioridades estratégicas e econômicas, desestabilizá-lo torna-se uma política estabelecida, e slogans como “democracia”, “anticomunismo”, “contraterrorismo” ou “guerra às drogas” são transformados em ferramentas para justificar pressão, sanções, mudanças forçadas de regime e derrubadas.

O que é novo desta vez não é a intenção, mas a audácia. Intervenções anteriores baseavam-se na negação, no uso de intermediários, em financiamentos secretos e em “conselheiros”. Agora, o presidente dos EUA assumiu abertamente a lógica do controle e da dominação, presumindo que o mundo se sentirá intimidado e chocado pela demonstração pública do poder bruto estadunidense.

Petróleo, sanções e a economia da mudança de regime - A Venezuela possui mais de 300 bilhões de barris de petróleo, o que a torna o país com as maiores reservas comprovadas do mundo. Esse fato nunca foi moralmente neutro em um sistema imperial que trata a energia como poder.

Mas não se trata apenas de petróleo. O cinturão minerador do sul da Venezuela, particularmente na região do Orinoco, é rico em ouro e outros metais preciosos. Com mais de 8.000 toneladas de reservas, o país está entre os maiores produtores de ouro do mundo.

A importância disso reside no fato de que intervenções apresentadas sob o pretexto de “combate ao narcotráfico” ou “anticorrupção” muitas vezes mascaram outro objetivo: conceder a Trump e aos chefes de corporações multinacionais o poder de decidir........

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