O Evangelho do golpe, da tortura e do entreguismo
A eleição presidencial de outubro de 2026 será mais do que uma disputa entre nomes. O Brasil está diante de um confronto entre dois projetos históricos e antagônicos.
De outro lado, o bolsonarismo, agora reorganizado em torno de Flávio Bolsonaro, herdeiro político de um movimento que combina ultraconservadorismo moral, fanatismo de mercado e agressividade antidemocrática.
Essa disputa não surgiu de repente. Foi preparada durante décadas, num lento deslocamento do eixo religioso-popular do Brasil. O país que conheceu a força das Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação e da opção preferencial pelos pobres foi sendo transformado por outra pedagogia: a da prosperidade individual, da guerra espiritual, do empreendedorismo de si mesmo e da demonização das pautas progressistas.
Quando a fé dos pobres assustou o poder
Nos anos 1960 e 1970, a Teologia da Libertação se tornou uma força real na América Latina. Sua potência vinha justamente daquilo que ainda hoje assusta as elites: a capacidade de ligar fé, consciência social, leitura crítica da realidade e organização popular. A religião, nesse contexto, deixava de ser consolo passivo e passava a funcionar como fermento de transformação histórica.
Foi isso que alarmou os centros de poder. Em plena Guerra Fria, a emergência de um cristianismo comprometido com a justiça social e a emancipação popular passou a ser vista como um problema estratégico. Não era apenas uma divergência doutrinária. Era a percepção de que a Igreja, em seus setores de base, podia se converter em território de resistência ao autoritarismo, à miséria e à dependência latino-americana.
Mas a contenção dessa corrente não veio só de fora. Veio também de dentro. O cerco do Vaticano à Teologia da Libertação enfraqueceu, ao longo do tempo, uma das mais importantes experiências de politização popular do continente. Com isso, abriu-se espaço para outra forma de ocupação religiosa das periferias e das classes trabalhadoras.
Da comunidade ao mercado
O neopentecostalismo cresceu no vácuo deixado por esse enfraquecimento, mas não apenas por isso. Soube responder, à sua maneira, às angústias de uma........
