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A Máquina de Escândalos de 2018 volta a operar em 2026

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27.02.2026

A engrenagem voltou a girar 

O Brasil já viu esse filme. 

Em 2018, o então favorito nas pesquisas foi retirado da disputa eleitoral após uma sucessão de decisões judiciais cercadas por vazamentos, cobertura em tempo real e construção de uma narrativa moral avassaladora. Lula permaneceu 580 dias preso. Foi impedido de fazer campanha. De dar entrevista. Sequer anunciar seu candidato. A eleição ocorreu sob o peso de uma atmosfera de condenação pública antecipada. 

O resultado é conhecido. 

Em 2026, o cenário é outro — mas o método soa familiar. 

São quase os mesmos personagens. Não é a mesma operação. Mas a lógica reaparece. E já ganhou um nome de guerra: Lava Jato 2. CPIs convertidas em arenas de disputa eleitoral, vazamentos seletivos cronometrados, redes sociais transformando fragmentos em certezas emocionais e uma mídia tradicional que chancela o barulho como fato político. 

A história não se repete mecanicamente. Mas rima — e, desta vez, a rima ecoa perigosamente como um retorno do método. 

CPIs como palco: investigação ou espetáculo? 

Comissões Parlamentares de Inquérito sempre foram instrumentos políticos. Não há ingenuidade aqui. Mas, em ambiente de polarização extrema e em pleno ano eleitoral, a CPI deixa de ser apenas instrumento fiscalizador e passa a funcionar como máquina de produção de narrativa. 

Cada sessão vira episódio. Cada depoimento, um clímax. Cada silêncio, uma insinuação. 

A CPI não precisa provar — precisa sugerir. 

Termos como “indícios”, “possíveis ligações” e “suspeita de envolvimento” são juridicamente prudentes, mas politicamente devastadores. Criam a sensação de que há algo estruturalmente errado, mesmo quando nada foi formalmente demonstrado. 

E a suspeita, uma vez instalada, opera com autonomia. 

O poder do primeiro vazamento 

Nenhuma engrenagem de escândalo funciona sem combustível. E o combustível é o vazamento. 

Vazamentos chegam incompletos, descontextualizados, fragmentados — e quase sempre estrategicamente cronometrados. 

O primeiro vazamento molda a narrativa-mãe. Ele define o enquadramento moral. 

Desmentidos posteriores raramente têm o mesmo alcance. Explicações técnicas não competem com manchetes. A correção não viraliza como a acusação. 

A opinião pública é formada na largada. E a largada quase nunca espera o contraditório. 

Vazamentos não precisam provar nada. Precisam apenas insinuar. 

O algoritmo substituiu o juiz 

Se a CPI produz o roteiro e o vazamento fornece o material bruto, as redes sociais fazem o resto. 

A lógica é emocional. 

Influenciadores políticos — de todos os espectros — recortam 15 segundos de um depoimento e transformam em indignação, ironia ou condenação sumária. O meme substitui o relatório. O print substitui o contexto. A repetição substitui a análise. 

O que viraliza não é o fato — é a emoção. 

E quando a emoção se repete milhares de vezes, cria-se a sensação de consenso: “todo mundo está vendo”, “todo mundo está comentando”, “algo grave está acontecendo”. 

A percepção passa a operar como verdade. 

A mídia como legitimadora do escândalo 

Mesmo num ambiente dominado por redes sociais, a mídia tradicional continua sendo o selo de realidade. 

Quando jornais, portais e telejornais entram na cobertura, o ruído digital ganha status de fato político. 

A mídia enquadra, amplifica e serializa. Transforma o episódio em saga. Mantém o escândalo na agenda. 

A lógica da velocidade e da competição por audiência favorece a dramatização. A busca pelo “novo desdobramento” transforma investigação em narrativa contínua. 

E, assim, a suspeita se consolida como atmosfera. 

Lava Jato 1 e o método 2026: a comparação inevitável 

Lula liderava as pesquisas. 

A Lava Jato produziu sucessivos episódios de alto impacto. 

Vazamentos alimentaram a cobertura diária. 

A narrativa moral se sobrepôs ao debate programático. 

O favorito foi retirado da disputa. 

Lula novamente lidera as pesquisas, ainda que por margem estreita. 

CPIs operam sob clima eleitoral. 

Vazamentos surgem de forma estratégica. 

A guerra de percepção antecede qualquer conclusão institucional. 

Pedidos de inelegibilidade já circulam no debate público. 

Não se trata de afirmar identidade de operações. Trata-se de reconhecer identidade de método. 

O método não exige condenação formal para produzir efeito político. Exige apenas atmosfera. 

Psicologia da suspeita: por que o método funciona 

Narrativas de corrupção são poderosas porque ativam mecanismos profundos: 

Viés de confirmação: quem já desconfia, acredita mais rápido. Heurística da disponibilidade: quanto mais se fala, mais parece verdadeiro. Memória moral: a sensação de “algo errado” persiste mesmo após desmentidos. Polarização afetiva: escândalos servem para atacar o adversário, não para esclarecer. 

Esses mecanismos tornam a suspeita quase indestrutível. 

Quando a narrativa se cristaliza, o dano político já está feito. 

O alvo não é apenas um político — é a eleição 

Em ano eleitoral, o impacto é exponencial. 

Escândalos mobilizam bases, influenciam indecisos, desgastam candidaturas e substituem propostas por batalhas morais. 

A disputa deixa de ser programática. Torna-se moral. 

A pergunta deixa de ser “qual projeto de país?”. Passa a ser “quem é corrupto?”. 

Quando isso acontece, o debate democrático se empobrece — e a eleição passa a ser decidida no campo da percepção. 

Investigação legítima ou guerra narrativa? 

É fundamental afirmar: investigar é dever institucional. Fiscalizar é obrigação democrática. Apurar irregularidades é essencial. 

Mas há diferença entre investigação e espetáculo. 

Há diferença entre apuração e construção de atmosfera. 

Há diferença entre responsabilidade institucional e guerra de percepção. 

Quando CPIs, vazamentos, redes e mídia passam a operar em sincronização emocional, a linha entre investigação legítima e instrumento eleitoral se torna perigosamente tênue. 

O Brasil aprendeu com 2018? 

A eleição de 2018 foi marcada por um ambiente em que a suspeita antecedeu a sentença e a narrativa moral antecedeu o voto. 

O país ainda debate as consequências daquele ciclo. 

Agora, em 2026, o método ressurge com novas ferramentas — algoritmos mais rápidos, redes mais polarizadas, influenciadores mais profissionais e disputa ainda mais acirrada. 

A democracia não pode ser refém da engrenagem da suspeita permanente. 

Investigações precisam ocorrer — mas não podem ser convertidas em instrumentos de desequilíbrio eleitoral. 

O Brasil já viveu uma eleição moldada pela atmosfera da condenação antecipada. 

Em 2026, a pergunta não é se haverá investigação. 

A pergunta é se a eleição será decidida nas urnas — ou novamente no tribunal da percepção. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


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