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É este o homem que quer presidir o Brasil?

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20.10.2026

Primo Levi, escritor judeu italiano e sobrevivente de Auschwitz, publicou em 1947 o livro que conhecemos no Brasil como É isto um homem? Nele, testemunhou o sofrimento imposto pelo nazismo e a tentativa de destruir a dignidade dos prisioneiros. 

Seu testemunho nos convoca a reconhecer a humanidade das vítimas e a preservar a memória do que lhes foi feito. É nessa exigência de dignidade que apoia a pergunta dirigida às escolhas de Flávio Bolsonaro: que autoridade moral tem para governar o Brasil quem glorifica um torturador? 

Eu perdi amigos para a ditadura que Flávio Bolsonaro enaltece. 

Honestino Guimarães, Gildo Lacerda e José Carlos da Mata Machado, eram jovens que sonhavam com a liberdade e com um Brasil mais justo. Tinham projetos, companheiras, filhos, amigos. Três exemplos de cerca de mais de 400 casos registrados. O regime instalado pelo golpe de 1964, que durou 21 anos, decidiu que suas vidas podiam ser eliminadas. 

Flávio defende a ditadura que os matou 

Em meu livro Entre o golpe e a eleição, publicado pela Thesaurus em 2026, dediquei uma homenagem à memória dos três. Ao recordá-los, honro também os 434 mortos e “desaparecidos” políticos relacionados no relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Cada nome corresponde a uma pessoa e a uma família atingida pela violência e pelo terrorismo de Estado. 

Essa história faz parte da responsabilidade de alguém que conheceu aqueles jovens. A distância de mais de meio século não autoriza transformar seus assassinatos em assunto encerrado. Sobretudo quando um candidato à Presidência defende um torturador e a ditadura que os matou. 

Conheci Honestino, em 1966 e 1967. Em 1972, ajudamos a abrigá-lo na casa dos Falcões, em Interlagos.  Décadas depois, naquela casa, reencontrei sua filha Juliana – tinha dois anos quando foi assassinado – e o neto Lucas, que ele não conheceu.  Zé Carlos visitou-me na redação do Jornal da Bahia, em 1971. Foi nossa despedida. Gildo era casado com a sobrevivente da tortura Mariluce Moura, minha colega no jornal e no curso de jornalismo, mãe de Tessa, a filha que Gildo não conheceu. Recordei esses encontros no artigo Honestino, Gildo, Zé Carlos: Presentes, publicado em 20 de julho. 

O tempo me trouxe a oportunidade de escrever sobre eles. A ditadura lhes tirou a possibilidade de contar suas próprias histórias. Escrever seus nomes é também recusar a versão dos que procuram justificar o crime e apagar suas vítimas. 

Sequestro, tortura e morte 

Honestino foi sequestrado aos 26 anos pela ditadura no Rio de Janeiro em outubro de 1973. Seu corpo permanece “desaparecido”. Gildo, aos 24 anos e Zé Carlos, aos 27, foram presos em cidades diferentes, transferidos para o DOI-Codi do Recife e mortos sob tortura. 

As 434 mortes e desaparecimentos políticos relacionados pela Comissão Nacional da Verdade não dimensionam toda a devastação provocada pela ditadura. Milhares de brasileiros foram torturados. Muitos sobreviventes carregaram, durante décadas, sequelas físicas e psíquicas que comprometeram seu sono, seus afetos, seu trabalho e a possibilidade de reconstruir a própria vida. 

Frei Tito de Alencar Lima é um dos exemplos mais dolorosos dessa violência prolongada. Torturado no DOPS e na Operação Bandeirante, em São Paulo, foi banido do Brasil em........

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