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Dark Horse, um roteiro nada original

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23.05.2026

A cena é de 2026, mas o sentimento é de filme repetido. Um senador sobe o tom contra a corrupção alheia, cobra investigações, exige rigor, fala em decadência moral da República. Em paralelo, surgem mensagens, cifras vultosas, conversas reservadas, visitas politicamente comprometedoras. O enredo é contemporâneo, mas a estrutura é velha. Em algum ponto entre a tribuna do senado e o bastidor, entre a postagem indignada no “X” e a agenda discreta, o país reencontra um tipo político que nunca saiu realmente de cena. Lima Barreto, se estivesse vivo, talvez não se espantasse com nada disso. Reconheceria apenas a atualização de personagens que ele já conhecia bem.

Em “Numa e a Ninfa”, Lima Barreto descreve um mundo em que a eloquência pública do discurso não exclui a pequena negociação de gabinete. Ao contrário, uma coisa alimenta a outra. O discurso serve para produzir respeitabilidade. A respeitabilidade serve para ampliar o poder de barganha. O favor distribuído nos bastidores sustenta a posição de quem, diante do público, se apresenta como homem de convicções elevadas. O romance não expõe apenas indivíduos hipócritas, como Numa Pompílio de Castro, filho de um empregado humilde, que sobe na vida fazendo alianças por puro interesse e com a ajuda de Edgarda Cogominho, a "ninfa", filha de um oligarca da região. A relação deambos simboliza muito bem o jogo de interesses e a manipulação que mandam na sociedade. Expõe uma engrenagem social em que a política se organiza como administração simultânea de aparência e interesse. Ler certos episódios da vida pública brasileira de hoje dá a impressão de estar diante dessa mesma engrenagem, apenas com um roteiro mais caro, novas tecnologias e uma linguagem mais adaptada ao século XXI.

Antes de nomear o caso concreto, convém compreender o mecanismo. A política, em qualquer sociedade, envolve disputa por poder, influência e reconhecimento. No Brasil, essa disputa assume com frequência uma forma específica: a transformação de capital simbólico em capital material e de capital material em prestígio político. A virtude pública, ou ao menos sua encenação convincente, torna-se um ativo valioso. Na sociologia, Pierre Bourdieu ajuda a entender esse processo ao mostrar que o campo político é um mercado particular de bens simbólicos. Nele, a imagem de integridade, coragem e firmeza moral tem grande valor. E justamente por ter grande valor, ela é produzida com zelo. O moralismo, nesse contexto, não é necessariamente uma convicção profunda. Muitas vezes é um recurso relativamente barato e extremamente lucrativo. E a extrema-direita o faz com maestria.

Isso não significa que toda indignação pública seja cínica. Significa algo mais incômodo: em sistemas políticos marcados por baixa confiança institucional, a linguagem da moralidade pode funcionar como um fundo de investimento estratégico. Quem acusa com energia ganha crédito. Quem se apresenta como fiscal dos outros ocupa uma posição vantajosa na disputa por legitimidade. E esse crédito acumulado na praça pode ser convertido, mais adiante, em acesso, proteção, proximidade com financiadores e margem de manobra. O discurso de pureza,........

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