Aqui não será Paris
O cenário global contemporâneo é marcado por uma profunda fratura entre a sociedade civil e as decisões de seus governantes. De um lado, uma onda de descontentamento popular varre importantes cidades; de outro, o fantasma da militarização, as sanções econômicas reversas e a austeridade liberal reconfiguram as prioridades geopolíticas, gerando forte instabilidade tanto na Europa quanto na América Latina.
Na Europa, a insatisfação social transbordou para as ruas. Em Paris, Marselha e Limoges, milhares de franceses — com forte protagonismo da juventude — protestam vigorosamente contra os cortes orçamentários decorrentes das políticas neoliberais da gestão de Emmanuel Macron. O foco central da revolta é o desmonte e a obsolescência programada do outrora robusto sistema de Educação e Cultura da França.
Esse sentimento de saturação não é isolado. As mobilizações estudantis ganharam tração internacional a partir de Tirana, na Albânia, onde os protestos inicialmente miraram a polêmica presença de investidores israelenses em projetos do país, convertendo-se rapidamente em um clamor generalizado contra as medidas restritivas e a corrupção estatal.
Na Itália governada por Giorgia Meloni, Milão — o coração industrial e tecnológico do país — assiste a uma forte mobilização popular nas ruas. O descontentamento evidencia o esgotamento do governo, que imaginou usar o espantalho do imigrante coletivo como distração ideológica. O governo neofascista, emulando seus congêneres históricos, pensou ser o suficiente para manter o povo adormecido diante da deterioração econômica interna.
O fluxo de mercadorias no continente também sofreu duros golpes com os bloqueios de trabalhadores em Bruxelas e a interrupção estratégica dos fluxos de trânsito em Dover, ameaçando o trânsito no Túnel da Mancha. Enquanto isso, em Lisboa, o desgaste político mobiliza as novas gerações, que veem suas perspectivas de futuro limitadas pelas diretrizes econômicas vigentes.
Essa asfixia socioeconômica europeia está diretamente ancorada no que analistas apontam como um verdadeiro “tiro no pé” geopolítico: o bloqueio ao gás e ao petróleo russos. Para evitar o colapso, a Europa viu-se forçada a substituir o combustível barato por gasoduto pelo caríssimo Gás Natural Liquefeito (GNL) importado dos Estados Unidos, que passou a ser o principal sustentáculo energético da região, gerando acordos bilaterais bilionários para empresários americanos.
Como resultado dessa reconfiguração forçada, a outrora........
