O feminicídio atravessa classes, poder e história: a desventura de dizer não e pagar com a própria vida
O Dia Internacional da Mulher não pode ser reduzido a uma celebração protocolar ou a uma data simbólica esvaziada de densidade política. Sua origem está vinculada às lutas operárias e às reivindicações por direitos civis e participação política.
Mais do que rememorar conquistas formais, o 8 de março impõe uma reflexão crítica sobre as permanências históricas da desigualdade de gênero. Entre essas, o feminicídio emerge como a expressão mais extrema de uma sequência de violências que começa na desqualificação sutil e culmina na eliminação física da mulher.
No Brasil, a autonomia feminina ainda é percebida como ameaça para alguns homens. Em uma sociedade estruturada sob a herança escravocrata, patriarcal e racista, mulheres que ousam romper relações abusivas ou afirmar sua independência frequentemente enfrentam reações violentas.
Nessa perspectiva, a contribuição da literatura é fundamental para compreender a dimensão histórica dessa violência. No romance “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, o título retoma uma expressão do século XIX que classificava a negritude como defeito social, estigma que, na lógica racista da época, exigia dispensa formal para permitir a ascensão de pessoas negras. A obra expõe como raça e gênero se articularam na constituição da ordem colonial brasileira.
A protagonista desse romance histórico, Kehinde, carrega a marca da dupla opressão, pois além de apresentar um defeito de cor por ser negra, é mulher. Seu corpo é simultaneamente força de trabalho explorável e objeto sexual apropriável. A violência que sofre, materializada em estupros, castigos físicos e exploração exaustiva de sua força de trabalho constitui o mecanismo de um sistema que a posiciona não como sujeito de vontades e de direitos, mas como propriedade de alguém aparentemente superior por não revelar em si um defeito de cor.
A colonialidade do poder possibilita a compreensão da continuidade histórica da violência às mulheres. Mesmo após a abolição formal da escravidão, as hierarquias raciais reorganizaram-se no interior da sociedade brasileira. A interseccionalidade entre racismo estrutural e desigualdade de gênero explica por que mulheres negras constituem maioria entre as vítimas de feminicídio. A vulnerabilidade não é apenas econômica, é histórica e simbólica. Quando mulheres negras rompem relações abusivas, enfrentam não apenas a violência individual do agressor, mas também a vulnerabilidade institucional e o racismo estrutural que limitam seu acesso à proteção.
A estrutura colonial que organizou o país classificou corpos segundo hierarquias de raça, gênero e utilidade econômica. Essa lógica, embora juridicamente superada, ainda permanece operando cultural e socialmente. O ato de dizer não, de recusar controle, posse ou submissão torna-se, sob essa ótica, um gesto de insubordinação a uma ordem que historicamente naturalizou a dominação masculina.
A história da personagem Kehinde expõe a brutalidade de um sistema que transformava mulheres negras em propriedade, todavia, o Brasil contemporâneo revela a persistência de uma lógica que ainda reage violentamente quando mulheres reivindicam autonomia.
Nesse horizonte, o feminicídio pode ser entendido como manifestação contemporânea de uma lógica de descarte social, uma dinâmica que naturaliza a morte de determinados corpos como menos socialmente perturbadora. A herança escravocrata não é........
