Unidos, vencem — divididos, perdem: o padrão eleitoral oculto do campo democrático-popular nas eleições no RS
A esquerda foi maioria no RS — e, mesmo assim, perdeu: os dados explicam o porquê
A história eleitoral recente do Rio Grande do Sul revela um paradoxo que desafia o senso comum: a esquerda não perdeu por falta de votos.
Ao analisar os resultados das eleições entre 1982 e 2022, os dados mostram que o campo democrático-popular — formado por PT, PDT, PCdoB, PSB e PSOL —, quando somados todos os seus votos, foi maioria ou esteve muito próximo disso em diversos momentos decisivos. Ainda assim, acumulou derrotas importantes devido à sua fragmentação.
A explicação está menos no comportamento do eleitor e mais na dinâmica interna das disputas: quando esses partidos atuaram de forma fragmentada, perderam posições que estavam ao alcance. Quando se aproximaram ou convergiram, venceram — inclusive com margem confortável.
Não se trata de identificar qual partido é mais forte, mas de reconhecer um padrão consistente: a força eleitoral desse campo aparece com nitidez quando ele atua de forma unificada.
Essa constatação não é apenas retrospectiva. Em um cenário de avanço da extrema direita no Brasil e no mundo, ela ajuda a entender o que está em jogo nas próximas eleições — e por que a estratégia adotada pode ser decisiva.
Formação do campo: a fragmentação como afirmação de identidades partidárias
As eleições de 1982 inauguraram o ciclo democrático contemporâneo. Naquele momento, a fragmentação correspondia à afirmação de novas identidades partidárias.
PT e PDT emergiam como forças distintas, com bases sociais, trajetórias e identidades políticas próprias. O desempenho eleitoral refletia esse estágio: o PDT já competitivo e estruturado, enquanto o PT ainda se consolidava como força política relevante.
Em 1989, essa configuração atingiu seu ponto mais evidente: o PDT ultrapassou 60% dos votos no RS no primeiro turno presidencial, enquanto o PT permaneceu como força minoritária. No segundo turno das eleições presidenciais de 1989, no RS, Brizola transferiu integralmente seus votos para Lula. Em 1990, essa força se traduziu em poder com a vitória de Alceu Collares ao governo estadual.
Nesse período, a fragmentação cumpria uma função estruturante: consolidava as identidades políticas dos partidos do campo.
Transição de hegemonia e emergência de um novo polo
A partir de 1994, o cenário se alterou de forma significativa. O crescimento do PT reorganizou o campo democrático-popular e deslocou seu eixo de liderança.
Os dados indicam que, já nesse momento, a soma das forças progressistas........
