“Os militares derrubaram Jango, mas implementaram algumas de suas reformas de base”
Autor de “O Projeto de Nação do Governo João Goulart”, Mestre em Economia do Desenvolvimento pela PUCRS, Doutor em Economia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o professor de Economia do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Cássio S. Moreira revela, nessa entrevista exclusiva ao programa “Cessar-fogo”, da TV 247, que algumas importantes e impactantes realizações de Jango no curto período em que governou o Brasil, foram implementadas pelos militares que o derrubaram em 1964.
EU: Cássio, o que seria o governo João Goulart se ele não tivesse sido cassado, não tivesse levado um golpe, e depois assassinado?
CÁSSIO: Tem uma frase do Celso Furtado, um dos grandes economistas da história do Brasil, essa frase eu acho que foi um ou dois anos antes dele falecer: “nunca foi tão grande a distância do que somos e do que poderíamos ter sido”. E eu uso essa frase do grande Celso Furtado. Claro que é muito difícil dizer o que teria acontecido, mas se o João Goulart tivesse conseguido realizar mais da metade das reformas de base que ele queria, eu tenho convicção que o Brasil seria outro, né? Um país muito mais igualitário, muito menos desigual do que é, e provavelmente um país mais desenvolvido. O Brasil seria outro se as reformas tivessem acontecido.
EU: Qual era o projeto do João Goulart para o Brasil?
CÁSSIO: Muitas ideias que acabam desaguando nas chamadas reformas de base, já existiam na cabeça do Jango antes da presidência, não foi uma coisa que veio do acaso. O projeto das reformas de base vai ficar muito forte a partir do momento em que Jango retoma os poderes de Presidente da República, em 63. Naquela época se votava para presidente e vice-presidente de forma separada e na eleição que elegeu o JK em 1955, Jango foi eleito vice e na eleição seguinte, Jânio Quadros foi eleito presidente e o João Goulart vice de novo, só que eram chapas diferentes: na chapa do Jango estava o Marechal Lott e o Jânio Quadros era de outra chapa. Então, foi eleito um candidato representando a UDN, o Jânio, embora não fosse filiado à UDN. O governo de Jânio era conservador no âmbito interno, o que agrada a direita, mas no âmbito externo ele adota uma política independente, que agrada as esquerdas. Ele condecora Che Guevara, por exemplo, o que faz com que Carlos Lacerda, o principal líder da UDN, rompa com o governo, Jânio renuncia e aí então pela constituição era previsto que o vice-presidente deveria assumir.
EU: Você........
