A banalização do mal
“O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.”1José Saramago
(Nunca me atrevi a escrever sobre as múltiplas guerras que nos assolam, atenta a minha falta de conhecimentos geo-políticos bastante. Contudo, face às duas últimas não posso deixar de fazer notar duas realidades diferentes. Gaza e o que lá se continua a passar desapareceu do mundo mediático, crente que estou que a situação não se terá alterado. Por seu turno, tenho ouvido e lido – agora e principalmente só agora… – múltiplas críticas a Trump no que concerne ao Irão, guerra essa que, também e à semelhança de outras, viola os mais basilares princípios do Direito Internacional, mas assentes, acima de tudo, nas consequências financeiras e económicas que está a provocar. Quando Trump dizia toda a série de enormidades mas sem consequências deste tipo (embora elas existissem sempre…) quase ninguém se atrevia a criticá-lo. Devo dizer que a hipocrisia parece-me total, já que é um, embora não exclusivo, dos principais instigadores do ódio. Aparentemente, só quando nos vão diretamente ao bolso é que as guerras são más. Quando assim não sucede, trata-se apenas de mais um acontecimento distante que passa nas televisões, entre uma garfada nossa e outra, e alimenta páginas de jornais a que muito poucos dão atenção.)
O título que dá origem a estas linhas tem origem no conceito filosófico desenvolvido por Hannah Arendt (1906–1975), exposto mais detalhadamente no livro Eichmann em Jerusalém (1963), o que não deixa de constituir mais uma ironia, atento o tempo em que vivemos. Em síntese, o que a autora defende – e bem! – é que o mal não é apenas praticado por pessoas invulgarmente cruéis e psicopatas. Pessoas comuns que assistem, não intervêm, acabam por normalizá-lo e passam a adotar o mesmo tipo de comportamento.
É exatamente isso que, sem que nos apercebermos, nos está a acontecer: a normalização do mal, absolutamente patente na crueldade expressa nas redes sociais (cujo objetivo inicial, segundo anunciavam, era aproximar-nos), nas caixas de comentários, quer destas, quer das notícias online, em que os heróis do teclado pensam poder ameaçar e insultar tudo e todos e na vida real.
Portugal, anteriormente conhecido por ser um país de brandos costumes, eventualmente até demasiado brando, passou a um simulacro de campo de batalha, em que a revolta de um povo que se sente, e algumas vezes com toda a razão, enganado se passou a expressar através de um discurso de ódio que nunca foi o nosso e de uma cultura do cancelamento, não já do que está errado mas do que é contra o que julgamos pensar. Principalmente, quando o erro está na nossa nova forma de pensar, instigados por uma cultura de ódio ao diverso que nunca foi a nossa.
Importa que se refira, de uma vez por todas, que as liberdades de pensamento e de expressão não se confundem (e, por mais que se queira o oposto, não se irão confundir nunca) com a ofensa dura e crua e a ameaça, por vezes concretizada e a passar em rodapé numa televisão qualquer.
A verdade é que deixámos de ler e de refletir minimamente para substituir tais momentos pela cultura do imediato, que onde emerge a violência gratuita contra quem de nós discorda ou a falta de causas a sério que tornem a nossa vida algo que realmente valha a pena e que possa fazer a diferença pela positiva.
Das grandes correntes filosóficas ou políticas passámos a ver vídeos insignificantes ou a discutir triângulos amorosos de programas televisivos, que se afirmam constituírem experiências sociais mas cujo sentido e alcance não é mais do que expor a total perda de valores e entorpecer-nos.
Na generalidade, somos uma massa de pessoas, rodeadas de cliques, que se acotovelam mas que nunca estiveram tão sós. E, segundo temos infelizmente tido oportunidade de verificar, o resultado dessa massificação da sociedade, em vez da prometida igualdade de oportunidades, foi ter-se criado uma multidão que berra, incapaz de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar.
Todavia, enquanto andarmos com a atenção desviada para assuntos acessórios, não aprendemos as lições que História já nos demonstrou várias vezes, a primeira das quais que a cultura do ódio se propaga a um ritmo muito acelerado e que o Homem comum, quando hipnotizado pelas causas e pelas pessoas erradas, é igualmente capaz do pior.
O repto que lanço é voltarmos ao básico, ao que nos distingue, à capacidade de sermos humanos no melhor sentido da palavra mas não nos ficarmos por aí. É voltarmos a ter a capacidade de discernir o errado do certo, ainda que este último num primeiro momento nos possa ser inconveniente, e dizermos não, de uma forma tão firme quanto educada. Estamos fartos de punhos de renda mas não me parece que seja uma horda de grunhos que nos possa salvar, sedentos que estão de resolver os seus próprios problemas. Principalmente, embora nos digam o oposto, à nossa custa.
1 – Sem que confunda o único escritor Prémio Nobel com algumas das atitudes que tomou e das quais discordo, cito António Cortez num artigo de opinião, num outro órgão de comunicação social: “Esta revisão curricular, ao diluir José Saramago, o único Nobel da nossa língua e literatura, o que faz é despromover a própria literatura e a língua, o seu ensino consciente e exigente”.
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