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Estados Unidos, o proxy de Israel. Opinião do analista político Miguel Baumgartner

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06.03.2026

Na última intervenção de Benjamin Netanyahu na Assembleia Geral das Nações Unidas, o primeiro-ministro israelita ergueu um mapa do Médio Oriente como quem apresenta um plano estratégico. Gaza surgia como dossier em vias de encerramento. O olhar deslocava-se para leste, para o Irão. A mensagem era clara: a ameaça estrutural à estabilidade regional não está apenas na Faixa, mas em Teerão. Contudo, o verdadeiro destinatário daquele gesto não era a assembleia diplomática. Era Washington. Sempre foi.

Netanyahu compreendeu cedo que o poder no Médio Oriente não se exerce apenas com superioridade militar, mas com capacidade de definir a narrativa da ameaça. Ao longo de décadas, construiu uma linha discursiva consistente: Israel não combate apenas as suas guerras, combate as guerras do Ocidente. Fê-lo quando descreveu a OLP como incapaz de aceitar a existência do Estado israelita, quando enquadrou o Hamas como expressão orgânica de um jihadismo irredutível e quando, perante o Congresso norte-americano, defendeu que a queda de Saddam Hussein produziria efeitos positivos em cadeia na região. Em 2012, dramatizou o programa nuclear iraniano com o célebre desenho da bomba e a linha vermelha traçada perante as câmaras do mundo. O alvo retórico era o Irão. O alvo político era a Casa Branca.

Não se trata apenas de retórica alarmista. Trata-se de arquitetura estratégica. A política externa americana no Médio Oriente depende da definição prévia da ameaça. Quem estabelece o enquadramento moral e existencial condiciona a margem de manobra do Presidente dos Estados Unidos da América. Ao apresentar cada milícia regional como braço operacional de Teerão e cada avanço no enriquecimento de urânio como prelúdio de aniquilação, Netanyahu reduz o espaço para soluções intermédias. Negociar passa a ser sinónimo de fraqueza. Conter transforma-se em capitulação. Nenhum líder em Washington quer carregar o ónus histórico de ter deixado Israel sozinho.

Discurso da ameaça existencial

A invasão do Iraque não foi uma guerra israelita. Mas o enquadramento conceptual que a legitimou foi amplamente partilhado por Telavive. O discurso da ameaça existencial, da proliferação e da necessidade de agir preventivamente foi internalizado no debate americano. O mesmo padrão repete-se com o Irão. A dramatização constante cria urgência estratégica. E a urgência gera intervenção.

Do outro lado, o regime dos aiatolas assenta, desde 1979, em três pilares identitários: rejeição do modelo ocidental, hostilidade estrutural aos Estados Unidos e negação do Estado de Israel. Esse antagonismo tem raízes históricas profundas.

Washington e Telavive foram pilares do regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi. A polícia secreta SAVAK tornou-se símbolo de repressão brutal. A narrativa de um Irão cosmopolita e liberal correspondia sobretudo às elites urbanas de Teerão. O país profundo permanecia desigual, rural e socialmente ressentido. A revolução islâmica não foi apenas uma revolta religiosa. Foi também uma reação à perceção de tutela estrangeira e à humilhação política.

Importa, contudo, evitar qualquer ingenuidade. O regime iraniano não é um ator passivo nem inocente. Ao longo das últimas décadas, financiou e armou uma vasta rede de proxies regionais, do Hezbollah no Líbano às milícias xiitas no Iraque e aos hutis no Iémen, projetando influência muito para lá das suas fronteiras. Esse financiamento incluiu apoio logístico, treino e transferência de armamento para grupos classificados internacionalmente como organizações terroristas.

Na Europa, serviços de segurança têm identificado redes de radicalização e células inspiradas ou indiretamente apoiadas por estruturas próximas de Teerão, incluindo financiamento encoberto e apoio ideológico. A instrumentalização de comunidades, a promoção de narrativas sectárias e a utilização de intermediários religiosos fazem parte de uma estratégia deliberada de expansão e intimidação. Nada disto pode ser ignorado quando se analisa o equilíbrio regional.

Superioridade dissuasora de Israel

Hoje, Israel mantém-se como a única potência nuclear do Médio Oriente, ainda que sem confirmação formal. Essa ambiguidade estratégica garante-lhe superioridade dissuasora. O Irão, ao aproximar-se do limiar nuclear através do enriquecimento de urânio, procura alcançar estatuto semelhante de intocabilidade, numa lógica comparável à da Coreia do Norte. Contudo, Teerão joga simultaneamente em múltiplos tabuleiros. Uma parcela significativa do petróleo que abastece a China atravessa o estreito de Ormuz sob influência iraniana. Moscovo utiliza drones e mísseis fornecidos por Teerão na guerra da Ucrânia. O regime integra uma rede revisionista que desafia a ordem liberal e procura reconfigurar equilíbrios globais.

É neste cruzamento que a tese se torna desconfortável. Falar dos Estados Unidos como proxy de Israel soa excessivo. Militarmente, a assimetria favorece Washington de forma esmagadora. Mas politicamente a dinâmica é mais subtil. Israel consegue frequentemente definir a hierarquia das ameaças, o enquadramento moral do conflito e o ritmo da escalada. Ao transformar os seus confrontos existenciais em batalhas civilizacionais, universaliza a sua causa e partilha o custo estratégico com o aliado indispensável.

Nada disto significa que a escalada seja monopólio de uma única parte. Há uma disputa hegemónica em curso no Médio Oriente. Israel pretende consolidar-se como potência incontestável da região. O Irão ambiciona romper o cerco e projetar influência até ao Mediterrâneo. Os Estados Unidos, entre alianças históricas, interesses energéticos e cálculo geopolítico, acabam frequentemente por agir dentro de um quadro conceptual que não definiram sozinhos.

A hegemonia contemporânea exerce-se muitas vezes por delegação. O poder não reside apenas em quem dispara os mísseis ou mobiliza porta-aviões. Reside também em quem define o inimigo, estabelece a urgência e transforma conflitos regionais em imperativos globais. No Médio Oriente, essa capacidade de definição tem sido exercida com notável consistência por Israel. E os Estados Unidos, voluntária ou inevitavelmente, têm respondido dentro dessa moldura estratégica.

Talvez o verdadeiro debate não seja sobre quem possui mais força militar, mas sobre quem molda a perceção da ameaça. Porque é nessa perceção que nascem as guerras.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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