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Ecoansiedade e outras alterações do clima mental

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27.02.2026

Acabámos de sair de um verdadeiro TGV de tempestades, e já nos falam na edição 2026 dos incêndios de verão – somos um hotspot europeu. O centro de Portugal ficou devastado, e a saúde mental dos seus habitantes vai continuar a experimentar desafios extremos – e novos. Ainda que alguns neguem as alterações climáticas (sofredores de outro tipo de perturbações mentais), elas estão, indubitavelmente, a alterar-nos o clima – o meteorológico, e também o económico, social e mental. Além da novidade das síndromes emergentes, a exposição a fenómenos climáticos extremados é um poderoso stressor e fator de risco agravado para doenças mentais já nossas conhecidas.

Estima-se que 40 a 45% da população mundial esteja já diretamente exposta aos efeitos das alterações climáticas: ondas de calor, secas, cheias e tempestades, subida do nível do mar, insegurança alimentar e energética – à volta de 3,5 mil milhões de pessoas vivem em contextos altamente vulneráveis. Indiretamente, todos os terráqueos sofrem o impacto da crise climática. Em Portugal, que está a aquecer mais rápido do que a média global e está entre os países europeus mais expostos ao aquecimento, 70% da população já sofreu impactos diretos episódicos, e 30% dos portugueses vivem em zonas de risco climático elevado. Portanto, apanhados do clima, somos todos. Mas nesta nova versão da história, não seremos só dinossauros, somos o meteoro destruidor.

O impacto direto das alterações climáticas na saúde mental acontece sobretudo por duas vias: (1) A via traumática: a exposição a fenómenos meteorológicos extremos causa 40 vezes mais trauma psicológico do que lesões físicas (segundo o Observatório Europeu para o Clima e Saúde), levando a um aumento imediato de 20 a 50% nas taxas de depressão, ansiedade, perturbação de stress pós-traumático e ideação suicida; (2) A via fisiológica, a exposição a ondas de calor, provocam um agravamento das perturbações do humor e do comportamento e o aumento do risco de suicídio – o calor extremo interfere com o sono, a regulação emocional, os níveis de serotonina e de inflamação, agravando quadros preexistentes e/ou provocando crises agudas. Na maior parte dos casos, este impacto direto na saúde mental é de longa duração e pouco democrático: os grupos socioeconómicos mais vulneráveis são mais afetados.

Impacto indireto. Provavelmente já ouviu falar de ecoansiedade. Mas sabe o que é solastalgia ou ecoluto? A amplitude temporal dos efeitos da crise climática está a criar mais e específico sofrimento psicológico.

A ecoansiedade, conceito criado pelo filósofo ambiental australiano Glenn Albrecht em 2007, e formalizado pela Associação Americana de Psicologia em 2017, é o “medo crónico de sofrer uma catástrofe ambiental decorrente da observação do impacto, aparentemente irrevogável, das alterações climáticas, gerador de preocupação com o futuro próprio e das gerações seguintes”. Considerada uma resposta emocional compreensível a riscos reais, tem sintomas reconhecidos – emocionais, cognitivos, comportamentais e somáticos – e acomete sobretudo adolescentes e jovens adultos: de acordo a Lancet Planetary Health, 45% dos jovens relata que as preocupações ambientais têm impacto negativo quotidiano. Mas não só: 36% dos adultos sentem ecoansiedade, e 12% reportam sintomas severos.

A solastalgia, também formulada por Glenn Albrecht em 2003, é uma resposta psicológica de sofrimento causado pela alteração do ambiente local, em que a pessoa vive e onde se mantém. Albrecht usou-a para descrever a “dor pela perda de consolo ambiental” sentida nas comunidades afetadas pela mineração a céu aberto na Austrália. Ainda não é um diagnóstico clínico formal, mas é reconhecida em psicologia ambiental, tem sintomatologia específica (stress crónico, dificuldades de concentração, insónia, ruminação sobre o futuro, diminuição do bem-estar) e é fator de risco para agravamento ou desenvolvimento de doenças mentais (sobretudo depressão e ansiedade).

Por fim, o ecoluto, menos estudado, é uma resposta emocional de sofrimento, tristeza ou desesperança profunda à perda ambiental, desencadeada pela destruição de ecossistemas, espécies ou espaços naturais com significado para dada pessoa ou para uma comunidade. Este sofrimento pode ser extremo e incapacitante, coexistindo ou dando lugar a doença mental.

Os dinossauros não deram pelo meteoro, mas nós sabemos que somos o meteoro e também os dinossauros. Até sabemos que o ponto de não retorno está a 4 anos, ali em 2030, e para as gentes do centro do país, parece já ter chegado. Mas continuando no business as usual, não há clima ou mente que se salve.

LINHAS DE PREVENÇÃO E APOIO

Serviço de Aconselhamento Psicológico SNS24808 24 24 24 (opção 4)

Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico1411

SOS Voz AmigaLisboaDas 15h30 às 00h30213 544 545 — 912 802 669 — 963 524 660Conversa AmigaInatelDas 15h às 22h808 237 327210 027 159

Vozes Amigas de Esperança de PortugalVoades-PortugalDas 16h às 22h222 030 707Telefone da AmizadePortoDas 16h às 23h228 323 535

Voz de ApoioPortoDas 21h às 24h225 506 070

SOS EstudanteLinha de apoio emocional e prevenção do suicídio.Todos os dias das 20h à 1h (exceto férias escolares)915246060 (Yorn) — 969554545 (Moche) — 239484020 (Fixo)

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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