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Democracia sob pressão

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02.01.2026

Vivemos um tempo em que a palavra “democracia” continua a ser pronunciada com solenidade, mas já não é sentida com a mesma convicção. Nos discursos oficiais e nos textos académicos, mantém-se como o modelo político-normativo por excelência — aquele que promete escolhas livres, direitos fundamentais e participação cidadã.

No entanto, a experiência quotidiana de milhões de pessoas em regimes consolidados e emergentes revela uma realidade mais ambígua: o sistema representativo é amplamente valorizado em abstrato, mas crescentemente questionado na sua prática, no seu funcionamento e, sobretudo, na sua capacidade de responder às expectativas sociais.

Este desgaste não é um fenómeno localizado nem uma idiossincrasia de um país europeu ou latino-americano. Trata-se de um padrão global de fadiga cívica, acompanhado por um progressivo afastamento dos cidadãos em relação aos partidos e instituições tradicionais, em benefício de movimentos populistas que prometem soluções rápidas para problemas estruturalmente complexos.

Dados comparativos relativos a sistemas políticos consolidados — como Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, França, Canadá ou Austrália — revelam uma quebra consistente do apoio às forças políticas tradicionais ao longo das últimas duas décadas. Esta erosão não se explica apenas por divergências ideológicas, mas sobretudo pela perceção crescente de que os partidos “mainstream” não conseguem ou não demonstram vontade suficiente para enfrentar os problemas concretos que moldam a vida das pessoas.

A crise de confiança que atravessa o espaço público tem duas faces complementares. Por um lado, exprime uma insatisfação legítima com instituições percepcionadas como distantes, tecnocráticas e pouco permeáveis às aspirações populares. Por outro, gera uma fragilidade estrutural que abre espaço a lideranças e movimentos que se apresentam como anti-sistema, recorrendo a........

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