A eleição que testa a democracia portuguesa
As eleições presidenciais em Portugal deixaram há muito de ser um mero ritual de confirmação institucional. No atual contexto europeu e global, passaram a representar um momento de prova para a resiliência democrática, a solidez das instituições e a maturidade do espaço público.
Num tempo marcado pela erosão da confiança, pela fragmentação social e pela radicalização do discurso político, o ato eleitoral ganha um peso que ultrapassa largamente a escolha de um nome. Transforma-se num teste ao próprio modelo de governação democrática.
É neste enquadramento que o crescimento da extrema-direita em Portugal deve ser analisado. Não como um fenómeno episódico ou resultado exclusivo de circunstâncias nacionais, mas como expressão de uma vaga internacional que atravessa democracias consolidadas e explora fragilidades reais do sistema para oferecer soluções ilusórias. Durante anos encarado como uma exceção, o caso português deixou de o ser. Essa mudança exige atenção.
O reforço eleitoral do Chega e a centralidade crescente de André Ventura no debate público não surgem do nada. Alimentam-se de uma insatisfação difusa, transversal a diferentes estratos sociais, que combina frustração económica, desconfiança em relação às elites políticas, sensação de impunidade e descrédito das instituições. Esse mal-estar é real. O problema começa quando é instrumentalizado por uma narrativa que simplifica excessivamente a realidade e oferece culpados fáceis em vez de respostas sustentáveis.
O discurso de Ventura assenta numa lógica de antagonismo permanente. A política é apresentada como um confronto moral entre “o povo” e um sistema corrupto e indiferenciado, onde tudo se confunde: partidos, tribunais, jornalistas, professores, funcionários públicos, minorias. Esta amálgama deliberada não é um acidente retórico; é uma estratégia. Ao diluir responsabilidades e eliminar nuances, o populismo cria um terreno fértil para a indignação,........
